Sabrina Noivas 116 - Groom By Arrangement
 
"Um desconhecido me pediu em casamento hoje...Por qu? Porque descobriu que meu padrasto tem controle absoluto sobre minha herana at eu completar 25 anos ou casar. E eu preciso assumir minha herana porque Lester no  1 homem em quem eu posso confiar. A proposta no podia ter vindo num momento mais oportuno...Por outro lado, como posso me casar com algum que acabei de conhecer? No sei se devo confiar em Hugh Garratt. Mas como resistir, se Hugh  o homem mais sexy e sedutor que j vi em toda minha vida?"

Digitalizao e correo: Nina

Dados da Edio: Editora Nova Cultural 2001
Publicao original: 1999. Estado da Obra: Corrigida
Gnero: Romance contemporneo
CAPITULO I

	Sete. O senhor venceu. 
A voz de Natasha soou gentil mas impessoal ao virar a carta e perder para o apostador.
Lorde Neville, apesar de ter ganhado uma quantia modesta, sorriu de prazer ao receber as fichas.
 Eu lhe disse que esta era minha mesa de sorte!
Natasha olhou para o homem que estava sentado ao lado de lorde Neville e perguntou se desejava continuar jogando. Ele havia perdido todas as apostas que fizera em um espao de trinta minutos e com elas quase todas suas fichas.
- No, obrigado.  Ele se levantou e sorriu sem humor.  Voc j me limpou o suficiente. Prefiro gastar as poucas fichas que restaram com uma bebida. Assim, ao menos, poderei afogar as mgoas.
Natasha apenas fez um gesto de despedida com a cabea, mas no pde evitar de acompanhar por um instante os passos do desconhecido.
Era a segunda noite sucessiva que ele visitava Spaniard's Cove, o cassino que sua av lhe deixara, e em ambas ele havia perdido uma quantia significativa. No se portava, contudo, como se o azar o abalasse. Parecia saber aceitar o desafio de uma mesa de jogo.
Era de homens em situao financeira estvel, como parecia ser o amigo de lorde Neville, que os cassinos sobreviviam em grande parte. De homens que respiravam dinheiro e negcios e que vibravam com os riscos que os jogos ofereciam em troca da chance de enriquecimento sbito.
Mas tambm havia clientes que se encaixavam em outras categorias, como aqueles que herdavam grandes fortunas e nao sabiam o que tazer com o tempo ocioso e os outros que no se importavam se perdiam ou ganhavam, pois no tinham escrpulos para sanarem suas contas bancrias
De qualquer modo, aquele homem no tinha jeito de perdedor. Sua postura era arrogante e ao mesmo tempo natural. A firmeza da linha do queixo sugeria seriedade. O sorriso era franco e amvel. Era a fora que se desprendia de seus ombros largos e de seu olhar que a faziam pensar que ele no era exatamente o que tentava demonstrar.
O palet branco que estava usando com casualidade era uma prova de que seu dono no podia ser algum simples como levava a crer. Ela no se espantaria se lhe dissessem que havia sido comprado na mesma loja que o de lorde Neville. Por outro lado, no podia imagin-lo como um membro da aristocracia. Suas mos no eram finas e macias como as dos nobres ingleses.
Os cabelos eram castanhos de corte curto e penteados de lado. As mechas mais claras lhe diziam que ele vivia mais ao ar livre do que em ambientes enfumaados como o de um cassino. O mesmo acontecia com a pele bronzeada. Os olhos no eram azuis como os dela, mas escuros. Havia algo de secreto, de misterioso em sua profundidade.
Quando voltou a si, Natasha percebeu que ele havia notado seu interesse e a fitava com um sorriso.
	Danaria comigo mais tarde, talvez, como um prmio de consolao?
Natasha negou com um gesto de cabea.
	Sinto muito, mas eu no dano.
Ao contrrio do que ela esperava, ele no se afastou.
	Nunca?
	Nunca  ela declarou com uma nota rspida que escapou a seu controle. Havia algo naquele homem que a perturbava mais do que desejaria admitir.
	Eu deveria t-lo avisado  disse lorde Neville e deu um tapinha no ombro do outro.  Ela nunca dana nem aceita que lhe paguem drinques.
	E uma pena  ele tornou a sorrir de maneira provocante enquanto examinava o corpo esguio e o elegante e sensual vestido de jrsei prata.  Mas no estou disposto a desistir. Posso ser persuasivo quando quero.
Natasha estreitou os olhos. No adiantou. O sorriso persistiu nos lbios  medida que ele se afastava e olhava para trs.
Natasha obrigou-se a concentrar sua ateno na mesa de vinte-e-um em vez de espiar para a figura alta e mscula que havia parado e observava a roleta girar enquanto flertava com uma morena de vestido vermelho e decotado.
A mesa que ficava sob os cuidados de Natasha era muito procurada. Em poucos instantes, o lugar vago foi substitudo e ela tornou a esboar seu sorriso profissional enquanto embaralhava as cartas.
Qualquer jogo que Natasha comandava atraa gente. Mas no era apenas por sua percia com as cartas. No diziam que os homens preferiam as loiras? Ela era a loira clssica de olhos azuis.
Mas aqueles que a julgavam pelo trabalho que fazia estavam enganados se pensavam que era do tipo fcil de ser conquistado e ludibriado. Natasha era inteligente e determinada. No se colocava atrs das mesas apenas para distribuir cartas e sorrisos. Quando era preciso, ela tambm era capaz de deter um homem com um simples olhar.
Antes de abrir a partida seguinte, Natasha olhou rapidamente o ambiente. O cassino estava movimentado aquela noite. Todas as mesas de roleta estavam abertas. O barulho das fichas caindo e sendo negociadas era por demais excitante. Significava lucro. Muito lucro. Ela deveria estar exultante.
O Spaniard's Cove havia sido uma fazenda de acar no incio. As terras pertenciam a sua famlia havia diversas geraes. Mas com a queda do preo do acar no mercado, seus avs tiveram grandes prejuzos e precisaram vender a propriedade. Mas como no conseguiram encontrar nenhum comprador, apesar de estarem dispostos a vender as terras por um preo baixo, surgiu a ideia de transformarem o velho depsito em um pequeno cassino. 
Foi uma ideia brilhante. Em pouco tempo, o local tornou-se conhecido e famoso por seu ambiente descontrado e aconchegante. Era perfeito para quem queria realmente se distrair e no se revestir de glamour como nos grandes cassinos de Monte Cario e de Las Vegas.
Natasha sentiu uma onda de nostalgia ao se lembrar da av, que fora a responsvel por grande parte do sucesso. Ela havia sido o corao do empreendimento, com seu riso franco e solto, com sua alegria contagiante. Seu nico defeito era fumar demais. E o cigarro acabara matando-a.
Fora a av a maior responsvel por sua educao. Natasha mal se lembrava do av e do pai. Era pouco mais do que um beb quando ambos foram mortos em um acidente de barco. Sua me era uma mulher tmida e calada. Cuidava dos afazeres, mas no fazia planos nem para o presente nem para o futuro. Se no fosse pelo incentivo de sua av, talvez no tivesse cursado uma faculdade.
Fazia um ano que Natasha havia se formado em Administrao de Empresas e voltado para casa, cheia de ideias e de resolues. Nada que tivesse relao com a posio de crupi que estava ocupando.
Lester. Esse era o nome do problema que ela havia herdado junto com o Spaniard's Cove. O nome de seu padrasto.
A av nunca havia gostado realmente dele, mas fora obrigada a contratar um gerente para ajud-la a administrar o negcio quando sua sade ficou comprometida. No que ele no fosse competente. Lester estava dobrando o faturamento ano a ano. Eram seus mtodos que Natasha no aprovava.
No havia, contudo, o que ela pudesse fazer para mudar isso. Ao menos por agum tempo. Trs meses aps a morte de sua av, Lester casou com sua me para surpresa geral.
No foi por amor de nenhuma das partes, Natasha deduziu. Fraca como era, sua me se deixou levar pelo conforto de ter um ombro forte em que se apoiar. De qualquer forma, o casamento no durou muito mais do que um ano. Antes de completarem o segundo aniversrio, sua me foi vtima de uma infeco virai e faleceu. De acordo com seu testamento, Lester ficaria responsvel pela conduo dos negcios que passavam a pertencer exclusivamente a Natasha embora ela s pudesse assumi-los  idade de vinte e cinco anos.
A vida havia sido boa para Lester Jackson. Apesar de seus cinquenta e cinco anos, a elegncia de seu corpo o fazia parecer mais novo. E os cabelos grisalhos lhe davam charme.
Era preciso admitir que Lester era um homem bonito e atraente. Todos o consideram simptico e afvel. Todos gostavam dele. Com exceo de Natasha.
Seria a nica a enxergar as mentiras por trs das declaraes? Os exageros desnecessrios? As adulaes?
Mais de uma vez, Natasha o viu mencionar nomes importantes e famosos, como se pertencessem a grandes amigos, em momentos de fechar negcios. Quantas vezes Lester proclamara responsabilidade em feitos que nunca haviam acontecido?
Sempre que ela tentava sugerir o fechamento do cassino, ele era terminantemente contra a ideia.
	No fale bobagem! O cassino  uma mina de ouro!
O outro curador, tio Timothy, no era uma pessoa com quem Natasha podia contar, tampouco. Ao mencionar suas ideias, Natasha soube que aquela havia sido a primeira e a ltima vez que abordara um assunto importante com ele.
	Lester ficou responsvel por seus bens justamente por que sabe como lidar com investimentos. Sinto muito, minha cara, mas embora voc tenha potencial, seus planos s podem ser encarados como especulativos neste momento.
No havia alternativa. Depois que fez todas as tentativas de colocar em ao seus planos e as viu frustradas, Natasha reconheceu que estava perdendo seu tempo e que no havia escolha. Era preciso esperar at seu aniversrio de vinte e cinco anos para fazer o que pretendia. Ou ento casar. Mas como ela no estava namorando e no tinha nenhum noivo em vista, no havia opo.
Natasha queria voltar para os Estados Unidos por uns dois anos, ou ento ir para a Europa e trabalhar na indstria do turismo. Mas o bom senso a alertara para que ficasse e zelasse pelo que lhe pertencia.
No duvidava da capacidade de Lester nem de sua honestidade com relao a ela. Se houvesse algo de errado, tinha certeza de que seu tio Timothy a teria alertado. Embora no fosse um homem de encarar desafios, ele era ntegro e digno de sua confiana.
Natasha tentou se consolar com o fato de que faltavam apenas dois anos para seu vigsimo-quinto aniversrio.
O prospecto era excitante. Desde a abertura do novo aeroporto ao norte da ilha, os turistas no paravam de chegar. O Spaniard's Cove, com sua lagoa azul-turquesa e suas praias de areias brancas, emolduradas por colinas verdejantes, era o cenrio perfeito para acomodar um resort de luxo. Haveria esportes aquticos como windsurf, mergulhos e natao e tambm quadras de tnis, campos de golfe e pistas para cavalos. O velho depsito de acar poderia ser convertido em um magnfico spa, completo com ginsio, banhos estticos e teraputicos, alm de mesas para massagem, aromaterapia e muitas outras tcnicas do que havia de melhor e mais moderno no mundo.
Acima de tudo, no haveria mais salas enfumaadas, nem pessoas de olhos vermelhos e coraes descompassados pela expectativa da sorte no jogo.
Antes de voltar a se concentrar no trabalho, Natasha sentiu-se atrada novamente para a figura alta do enigmtico amigo de lorde Neville que continuava sendo alvo das tentativas de seduo da morena.
Quase sorriu consigo mesma. Por mais incrvel que pudesse parecer, era inevitvel que seu olhar pousasse sempre no homem mais bonito presente. Por mais lotado que estivesse o cassino, ela o encontrava na multido.
O desconhecido deveria ter pouco mais de trinta anos. No se lembrava de t-lo visto antes. Seria um, turista como os outros? Ou herdara uma fortuna, de repente, e resolvera se estabelecer na cidade e conhecer suas opes de entretenimento?
Natasha deu de ombros mentalmente. Se ele no dava valor a seu dinheiro, no se importava. Nesse caso era apenas mais um tolo entre os outros, o que parecia estar demonstrando ao no sair de perto de Darlene, a morena que fazia do cassino sua fonte de renda todas as noites.
Pouco antes da meia-noite, Natasha entregou a mesa de vinte-e-um a um dos funcionrios e saiu para tomar um pouco de ar fresco.
Adorava Spaniard's Cove. A beleza da propriedade a fascinava desde os tempos de criana. Cercada de altas formaes vulcnicas cujas linhas eram suavizadas pela paisagem azul-esverdeada da floresta tropical que cobria suas encostas, e por uma praia de areias que adquiriam tons rosados ou brancos de acordo com a incidncia do sol, arrematadas pelo azul intenso do mar do Caribe, nenhum outro lugar no mundo lhe parecia to perfeito.
A noite, o cu se tornava um manto de veludo negro salpicado por milhes de estrelas to brilhantes que a faziam pensar, quando criana, que os anjos as habitavam.
Enquanto caminhava pelos jardins exuberantes do cassino e respirava a suave brisa perfumada de jasmim, Natasha dizia a si mesma mais uma vez que a espera valeria a pena, embora dois anos ainda fossem custar a passar.
Um grito repentino e o som de passos apressados a fizeram abandonar o agradvel sonho e se dirigir ao velho estbulo atrs do cassino que era usado agora como depsito de materiais e garagem.
Havia trs pessoas atrs do Mercedes de Lester. Debbie, a namorada de seu padrasto, estava chorando e implorando para que ele se acalmasse. Lester se desvencilhou com impacincia e olhou para o terceiro elemento que Natasha reconheceu como Jamie, o filho mais novo do cozinheiro, um garoto de treze ou catorze anos que trabalhava como ajudante do jardineiro quando no estava na escola.
Natasha resolveu intervir no momento que Lester ergueu a mo para agredir o garoto.
O chamado brusco o deteve. Na posio em que o flagrou, Natasha percebeu que ele segurava um chicote desses usados com os cavalos. Jamie aproveitou a chance para fugir do local.
Lester transferiu sua fria para a enteada.
	O que est fazendo aqui? Por que me impediu de castig-lo?
	Por que queria castig-lo?  Natasha perguntou com frieza.  O que ele fez?
 O que ele fez? Ele riscou meu carro. Venha dar uma olhada!
Natasha examinou o pequeno risco na lateral e franziu a testa.
	Eu diria que este risco foi feito no momento que o carro entrou na garagem.
	Eu no fiz isso!  Lester protestou.  Acha que no consigo guardar meu carro m minha prpria garagem?
	No depois de alguns drinques  Natasha afirmou.  E ontem voc passou da conta.
A pele de Lester adquiriu uma cor escura e ele tornou a erguer a mo. Natasha no se moveu, mas temeu por um instante que ele fosse agredi-la com o chicote, embora no desse demonstrao.
Ao contrrio. Sustentou o olhar furioso com calma e superioridade at venc-lo. Com um improprio, Lester atirou o chicote no cho e se afastou.
Natasha s conseguiu voltar a respirar depois que o padrasto saiu da garagem. A discusso a havia abalado mais do que desejaria admitir. Sabia que Lester era temperamental, mas no que fosse capaz de violncia. Olhou para o chicote, recolheu-o do cho e pendurou-o na parede, no gancho apropriado.
s suas costas, Debbie estava chorando.
	Obrigada, Natasha. Eu tive medo de que ele fosse realmente machucar o pobre menino.
Natasha olhou para a mulher. Debbie tinha trinta e seis anos e era bonita e elegante. No entendia como uma pessoa gentil e bem-sucedida como ela, dona de uma rede de sales de beleza instalados nos melhores hotis da cidade, podia se relacionar com um homem como Lester.
Um pensamento terrvel assaltou-a.
	Ele j bateu em voc, Debbie?
	Oh, no  a mulher respondeu com firmeza.  Ele nunca faria isso comigo. Mas ficou transtornado quando viu o risco no carro. Voc sabe como ele o adora.
Natasha concordou com um gesto de cabea. Lester era um homem de gostos extravagantes. No entendia, porm, o que ele podia querer fazer com um carro veloz como um Mercedes em uma ilha to pequena que podia ser percorrida a p em uma nica tarde.
Debbie tocou o capo do carro e suspirou.
	s vezes penso que ele gosta mais do carro do que de mim. Nunca fala em casamento e eu farei quarenta anos em um piscar de olhos.
Natasha balanou a cabea.
	Francamente, no sei o que voc v em Lester. Ele no a trata como merece. Por que no termina esse relacionamento e encontra algum melhor?
Debbie encolheu os ombros.
	Eu o amo.
Natasha no insistiu. Viu a mulher se mirar ao pequeno espelho que tirou da bolsa, ajeitar a maquilagem e os cabelos e ir atrs do namorado.
Sozinha, voltou a pensar em seu problema. No havia soluo imediata para ele. Um casamento poderia apressar o desfecho, mas tambm poderia significar um salto da frigideira direto para o fogo. No acreditava realmente na instituio do casamento. O tipo de vida que levava, dentro de um cassino, no servia de inspirao.
Estava acostumada a ver homens com carteiras recheadas e egos imensos, desfilando com esposas bonitas como se fossem trofeus. Mas que eram trocadas por modelos mais jovens cada dois ou trs anos como se fossem carros. A menos,  claro, que o dinheiro que eles torravam nas mesas de jogo fosse delas.
No. Casamento no era a resposta, Natasha decidiu ao sair da garagem e fechar a porta. Era preciso encontrar outra soluo.
Procurou Jamie com os olhos, mas no o viu em parte alguma. A garoto deveria estar aterrorizado. Ela prpria ainda no havia se recuperado da cena que testemunhara. Se no tivesse chegado no local no momento exato, Lester teria aoitado o menino.
Sem disposio para continuar a caminhada, Natasha deu a volta pelo prdio e entrou pela porta da frente.
A construo no conservava nenhum trao do que fora no passado. Era feita de pedra rosada com janelas altas e estreitas e teto achatado. O projeto era especial para suportar as tormentas tropicais que costumavam atingir a ilha em determinadas pocas.
Havia um amplo terrao em toda a frente e cartazes luminosos em non verde e cor-de-rosa com o nome do cassino. As antigas portas de madeira ainda persistiam, mas ficavam encostadas s paredes. S eram usadas para proteger as atuais, em vidro e bronze, em situaes de emergncia, como anncios de furaces.
Ao v-la, o porteiro a saudou com um largo sorriso.   Boa noite, srta. Natasha.
	Boa noite, Jem. Tudo bem com voc?
	Sem problemas  ele respondeu e o sorriso aumentou.  Nunca tenho problemas.
Natasha sorriu, satisfeita em saber que ao menos uma pessoa estava contente com a vida que levava, e parou junto  mesa da recepo para verificar o livro de registros.
O hall de entrada estava repleto de caa-nqueis com suas luzinhas piscando e sirenes disparando conforme as fichas caam anunciando os prmios para deleite dos jogadores. Natasha detestava-as embora fossem uma grande fonte de lucro para a casa.
O salo principal abria-se como uma caverna. Tudo ali dentro brilhava, desde o piso encerado at os lustres de cristal. O efeito de luz era ainda maior por causa dos reflexos produzidos pelos imensos espelhos colocados estrategicamente em todas as paredes.
O carpete verde-escuro era alto e macio e alm de proporcionar um bonito visual, absorvia todos os rudos de passos, em especial quando pertenciam s mulheres com seus saltos altssimos. No teto, pequenos ventiladores e respiradouros tentavam minimizar os efeitos da fumaa de cigarros ao mesmo tempo que refrescavam o ambiente.
Natasha franziu a testa  ocorrncia de um sbito pensamento. Teria sido realmente diferente nos tempos de sua av, ou eram seus olhos de criana que viam o cassino sob outro aspecto?
No. No estava enganada. Sua av era uma empresria,  claro, e conduzia o negcio para ganhar dinheiro. Mas havia glamour. E ela fazia questo de ver as pessoas se divertindo e no apenas gastando o que tinham e o que no tinham.
Antes, havia apenas seis mesas de roleta. Dez se amontoavam agora no mesmo espao alm de continuarem oferecendo mesas de vinte-e-um e de dados.
A esquerda, havia um luxuoso restaurante que tambm funcionava como boate. Ao fundo, Ricardo cuidava do bar. Como ele estava saindo de frias, Natasha resolveu se despedir.
Ao atravessar o salo, viu sua imagem refletida no espelho e controlou um pequeno sorriso. Quem a via, alta e magra, com os cabelos loiro-platinados presos em um coque sofisticado, e a postura distante, imaginava-a fria e calculista. Sabia que muitos homens a consideravam inatingvel. Fazia isso de propsito. Era gentil com eles, mas impunha distncia. Seu sorriso frio era francamente desencorajador.
No pretendia, afinal, envolver-se com nenhum dos frequentadores. Sua av a alertara nesse sentido mais do que o suficiente. Desde pequena ela a escutava dizer que no dia que se apaixonasse no deveria ser por um jogador.
Natasha j havia circundado quase toda a pista de dana e estava chegando ao bar quando foi abordada pelo enigmtico amigo de lorde Neville.
	Ol, srta. Cole, mudou de ideia a respeito de uma
dana, talvez?
Natasha enfrentou o olhar atento e a pergunta irnica com a habitual frieza.
	No, no mudei.  Mas antes de terminar de responder, dois braos fortes a rodearam pela cintura.  Por favor, solte-me  pediu, indignada.
Em vez de solt-la, ele a atraiu de encontro ao peito.
	Ah, mas  uma msica to romntica e eu perdi tanto em sua mesa! No poderia me conceder alguns minutos apenas para me animar um pouco?
	Voc no me parece deprimido  Natasha protestou.
	Porque sou bom em disfarces  ele retrucou.
Natasha estreitou os olhos.
	Uma questo de prtica, devo pensar?
	De falta de prtica, eu diria  ele respondeu.  A essa altura, talvez j devesse estar jogando melhor.
	Diz que costuma jogar, no entanto no me lembro de t-lo visto aqui antes.
	Faz tempo que trabalha aqui?  ele se limitou a perguntar, sem dar nenhuma explicao.
	Eu no trabalho aqui  Natasha corrigiu-o.  Sou a dona do cassino.
	Pensei que o dono fosse Lester Jackson.
Natasha negou com um movimento de cabea.
	Ele  meu padrasto e est administrando minha herana. De acordo com os termos, s poderei assumir o controle quando alcanar a idade estipulada.
O homem no respondeu de imediato.
	Que tipo de lugar era este?  Ele olhou para o teto em mogno.  D a impresso de ter funcionado como uma espcie de depsito.
	Exatamente  Natasha confirmou o palpite.  Spaniard's Cove j foi uma fazenda de acar.
	O que houve?
	Presses do mercado. A cana substituiu a beterraba. Os produtores antigos faliram em sua maioria. Meus avs tentaram transformar a fazenda em um hotel, mas no deu certo. Aqueles que se interessavam em conhecer a ilha, preferiam ficar hospedados em seus prprios iates. Depois surgiu a ideia de montarem um cassino e  o que fazemos at hoje.
O estranho ouvia com genuno interesse.
	O que aconteceu com a casa?
	Um furaco a destruiu antes de eu nascer. Em vez de tentarem reconstru-la, meus avs preferiram aproveitar a madeira para erguer pequenas cabanas ao longo da praia.
	E as terras? Eles as venderam?
	No  Natasha respondeu a contragosto. Afinal, qual era a razo para tantas perguntas?  Uma parte est servindo para o cultivo de banana, outra est arrendada, mas a maior parte est em compasso de espera. Tenho planos para o futuro prximo.
	Enquanto isso, ocupa-se com as mesas de vinte-e-um  ele declarou com um sorriso que a deixou com a respirao suspensa.
	Sim, e com as roletas, de vez em quando.
	Roletas  ele repetiu e balanou a cabea.  Tambm no tenho sorte com roletas.
	Por que insiste em jogar, ento?  Natasha perguntou.
Ele deu de ombros.
	Para me divertir. Voc ficar em alguma mesa de roleta ainda esta noite?
	No. Aps esta pequena folga, voltarei ao vinte-e-um.
	Voc trabalha at que horas?
	At fecharmos.
	E depois, o que pretende fazer?
	Verificar a receita.
	No  Lester quem cuida disso?
As perguntas insistentes estavam irritando-a e ao mesmo tempo intrigando-a. Embora ele tentasse parecer casual, estava obviamente tentando saber detalhes sobre o funcionamento do cassino.
	Ns nos dividimos nessa tarefa.
Ele riu como se soubesse que ela estava mentindo.
	Quer dizer que no confia em Lester?
	Claro que confio  Natasha se apressou a afirmar. No conhecia aquele homem. Quem ele pensava que era para querer se intrometer em seus assuntos pessoais? Para colocar um fim na conversa, ela olhou ostensivamente para seu relgio de pulso.  O intervalo acabou. Com sua licena, senhor...
	Meu nome  Hugh. Hugh Garratt.  a segunda vez que me apresento a voc esta noite. 
	Queira desculpar. O cassino recebe muitos frequenta dores. No consigo guardar o nome de todos  Natasha mentiu. Lembrava-se perfeitamente do nome dele.
	Pensei que fizesse parte do trabalho de um crupi memorizar nomes.
	No. Nosso trabalho  memorizar as cartas  Natasha retrucou.
	Consegue fazer isso?
	Muito bem.
Um novo e amplo sorriso.
	Ah! No  de admirar que eu s tenha perdido.
Natasha no pretendia rir, mas no conseguiu evitar.
	Pretende passar outra noite por aqui?
A pergunta foi feita em tom casual, mas Natasha estava ansiosa pela resposta, embora no soubesse explicar o porqu.
	Quer que eu fique?
Natasha recuou no mesmo instante.
	Eu s estava tentando ser gentil.
	Talvez eu fique  Hugh Garratt respondeu depois de um minuto de suspense.  Ainda no decidi. Depende.
	De qu?
	De eu achar que valer ou no a pena.
Um olhar de gelo substituiu o brilho de interesse. Se Hugh Garratt pensava que ela era do tipo de Darlene, estava completamente enganado.
	Se est insinuando o que penso, pode ir embora agora mesmo.
Ele riu com falsa inocncia.
	O que eu poderia estar insinuando?
Uma vontade quase irrefrevel de agredi-lo a dominou. Mas ela apenas desvencilhou-se daqueles braos e se afastou da pista de dana.

CAPITULO II

	Com quem voc estava danando ontem  noite?
	Com ningum  Natasha respondeu enquanto tomava seu caf da manh. Era raro Lester se apresentar  mesa para o desjejum. Ele no costumava se levantar antes do meio-dia. Naquele dia, em especial, aps a cena desagradvel na garagem, ela preferiria ter feito sua refeio sozinha.
Lester riu com ironia.
	Era algum. Voc nunca dana com os clientes. Por que abriu uma exceo?
	Ele barrou minha passagem quando estava me dirigindo ao bar  Natasha explicou.  No tive como evitar.
	Eu o vi  mesa de vinte-e-um. O sujeito perdeu todas as rodadas. E o tipo de cliente interessante. Seja simptica com ele, garota. Faa-o perder mais para nossos cofres.
Natasha endereou ao padrasto um olhar de desprezo. No iria responder. Estava ocupada demais terminando de comer seu croissant com gelia de abric no restaurante do cassino.
A mesa junto  janela era a nica que estava arrumada. O cassino ainda demoraria duas horas para ser aberto. As nicas pessoas no local estavam trabalhando na limpeza das salas.
	Est insinuando que devo lev-lo a pensar que iria para a cama com ele como prmio de consolao, caso continuasse jogando e perdendo?
	O que h de errado nisso?  Lester indagou.  Voc no precisa ir at o fim. Sabe muito bem como so essas coisas.
	Saber eu sei, mas isso no significa que aprove esse tipo de atitude.
O padrasto quase quebrou a xcara com a fora que a colocou na mesa.
	Se no fosse por mim, este lugar estaria dando prejuzo. E o que eu recebo? Crticas e m vontade. Voc nem sequer se d ao trabalho de ser gentil com meus amigos.
	Se considera seu amigo o crpula que trouxe aqui no ms passado e se ser gentil significa deixar os clientes passarem suas mos sujas em meu corpo, esquea! Eu j fui gentil o suficiente ignorando-o. Por minha vontade, eu o teria atingido com meu joelho em um lugar especfico!
Lester inclinou-se por cima da mesa.
	 melhor voc vigiar essa lngua, garota. Ningum fala nesses termos com Tony de Santo.
Natasha riu com desprezo. Seu padrasto impressionava-se com os chamados homens poderosos. Ela no.
	Falo com os homens como eles merecem  Natasha retrucou. Aquele sujeito  odioso. Compar-lo a uma cobra venenosa  ofender o rptil.
Natasha no terminou de comer. Ela havia perdido o apetite. Levantou-se e saiu do restaurante sem olhar para trs.
O apartamento privativo da famlia ficava no andar de cima do cassino, onde antes funcionava o escritrio da fazenda. Natasha o dividia com Lester. Por um motivo ou por outro, nenhum dos dois manifestou inteno de mudar o esquema. Afinal s usavam aquele espao para dormir e trocar de roupa.
Natasha estava subindo os degraus quando lhe ocorreu que um banho de mar poderia ajud-la a relaxar. No quarto, escolheu um biquini, vestiu-o e colocou uma camiseta e short por cima. Lembrou-se em seguida de apanhar uma toalha, um filtro solar, um chapu e um livro.
A praia estava repleta, mas ela conhecia um atalho que levava a uma pequena praia, que ficava quase deserta, cerca de dez minutos de distncia a p.
Ajeitou a ala da bolsa de palha no ombro e seguiu para seu recanto, depois de passar pelas cabanas e pela vegetao fechada que conferia a to desejada privacidade ao local.
O sol estava forte quela hora da manh. A gua deveria estar deliciosamente morna. Assim que chegou, Natasha colocou suas coisas na areia e entrou no mar. Nadou entre os pequenos agrupamentos de corais que abrigavam minsculos peixes coloridos at sentir a tenso desaparecer.
Quando saiu da gua, teve a grata satisfao de descobrir que a praia continuava vazia. Com um suspiro de prazer, apanhou a toalha e secou os cabelos, depois estendeu-a junto a uma rocha, aplicou uma generosa camada de filtro solar em todo corpo e colocou o chapu. Sentou-se na toalha, apoiou as costas na rocha e abriu o livro.
Leu por quase um minuto. Antes de virar a pgina, a paz de sua manh foi abruptamente abalada pela chegada de um homem alto com uma prancha de windsurf.
Com tanta gente no mundo, por que tinha de ser Hugh Garratt o intruso?
	Oi  ele cumprimentou-a bem-humorado.  Que surpresa agradvel!
	Igualmente  ela respondeu em tom de quem pensava o contrrio.
	Espero no estar atrapalhando  ele disse, mas o brilho divertido em seus olhos era uma prova de que sabia que no era bem-vindo. Natasha tinha quase certeza, alis, de que Hugh Garratt a seguira.
	Em absoluto  ela declarou, sem afastar os olhos do livro.
	Vim aqui para testar esta prancha nova  ele confidenciou.  No quero ser visto antes de domin-la.
	Est dizendo que nunca praticou windsurf?
	Infelizmente, no  ele respondeu.  Sempre quis aprender, mas nunca tive coragem. Decidi no ir embora daqui sem ao menos tentar.
	Bem, faa de conta que eu no estou aqui.  Natasha tornou a baixar a cabea e olhar para o livro ao v-lo se preparar para tirar a camiseta.
Mas, sem querer, ela viu-se admirando o peito e os braos fortes e levemente bronzeados cobertos de plos escuros.
Obrigou-se a se concentrar na leitura. O que estava acontecendo com ela? Hugh Garratt era um jogador como os outros. No merecia sua ateno.
	Por favor...
Ela olhou para cima quando a sombra dele a cobriu.
	Sim?  perguntou sem tentar disfarar a irritao.
	Sinto incomod-la, mas poderia me emprestar um pouco de seu filtro? Esqueci de trazer o meu e no quero me queimar.
	Sim,  claro.  Natasha apanhou o frasco na bolsa e entregou-o.
Embora no ficasse olhando, Natasha percebeu cada um dos movimentos que Hugh Garratt fazia ao espalhar o creme. Percebeu, tambm, uma hesitao.
	Desculpe incomod-la novamente  ele disse e sorriu com ar de fingida inocncia , mas poderia passar um pouco em minhas costas?
Natasha deu um suspiro, tirou o chapu e colocou o livro sobre a toalha. Quando se levantou, quase arrancou o tubo das mos dele.
	Vire-se.
Ela comeou a passar o creme na nuca. Depois deslizou a mo at os ombros. A pele de Hugh estava quente. Sob seus dedos, os msculos eram firmes e bem definidos. Atendeu o pedido como se estivesse cumprindo uma desagradvel misso.
Achara-o alto na noite anterior e estava usando sandlias de salto alto. Agora, com os ps descalos na areia, ele estava lhe parecendo quase um gigante.
Quando deu por si, Natasha estava com a boca seca. Sua cabea parecia ter ficado leve de repente. A vontade que tinha era de abra-lo pela cintura e apoiar o rosto e o peito naquelas costas msculas.
Afastou-se como se tivesse levado um choque. Mais um minuto, e ela teria se comportado como uma tola.
	Pronto.
	Obrigado  Hugh agradeceu com um sorriso de quem havia percebido o que acabara de acontecer. No podia culp-lo. Os culos escuros podiam impedi-lo de ver a expresso de seus olhos. Mas ele estava vendo e ouvindo, com certeza, sua respirao alterada. Alm disso, suas mos tremiam tanto que ela no estava conseguindo fechar o tubo de creme. Antes que pudesse refletir, Natasha estendeu a mo para o peito dele.
	Voc no espalhou o creme direito.  Ela o tocou pouco acima do corao.
	Obrigado  ele tornou a agradecer.
Dessa vez, Natasha detectou uma mudana no tom de voz. Hugh parecia ter ficado rouco de repente. Algo estava acontecendo. No era impresso. Uma corrente eltrica os unia.
Natasha tentou voltar a si. No era coincidncia. A presena de Hugh Garratt em sua praia era proposital. Era preciso lembrar que ele era um jogador.
	Agora pode se divertir sem correr o risco de se queimar. Desde,  claro, que no se exponha por demasiado tempo.
Ele deu aquele seu risinho com o qual ela j estava se acostumando.
	Sou-lhe imensamente grato. Prometo no tornar a incomod-la. Volte para sua leitura.
Natasha no esperou que ele renovasse a sugesto. Sentou-se e tornou a colocar o chapu. Mas no conseguiu se concentrar no livro mais do que antes. Trs pargrafos depois, descobriu que no havia assimilado a mensagem. Esquecer que Hugh estava na mesma praia que ela era o mesmo que tentar fingir que no havia sol aquele dia.
Cada vez que olhava para o mar, via Hugh tentando se equilibrar sobre a prancha e caindo. Abandonou o livro, mais uma vez, e foi at a beirada.
	Fique reto. Levante a cabea  ensinou-o.  No olhe para os ps.
Alguns segundos depois, Hugh tornou a cair.
	No adianta  Hugh resmungou ao se agarrar nova mente  prancha.  Essa coisa balana demais.
	Procure no pensar no que est fazendo  Natasha aconselhou.  Flexione levemente os joelhos e sinta-se flutuar. No olhe para baixo mas para a praia.
Dessa vez, Hugh conseguiu surfar por alguns instantes. Mas uma pequena elevao de gua que no chegou a se transformar em onda tornou a desequilibr-lo.
	No nasci para isto. J me convenci. Talvez, se voc pudesse me mostrar...
Natasha ficou desconfiada ao ouvir as reclamaes e ainda mais o pedido. O corpo de Hugh era de algum acostumado a praticar esportes. Algo lhe dizia que ele estava querendo chamar sua ateno. Mas como no tinha nada melhor para fazer naquele momento, entrou na gua.
	Em primeiro lugar  preciso equilibrar a prancha e aprumar a vela.
Natasha sentiu o golpe do vento ao atingir a vela e a movimentao da gua sob os ps e instintivamente tentou virar-se em direo a Hugh.
	Voc viu? Os ombros devem ficar projetados para a frente e o corpo deve ficar apoiado na ponta dos ps.
	O que voc disse?  Hugh perguntou.  No consegui ouvir.
	Fique na ponta dos ps  Natasha repetiu com o mesmo resultado. O vento estava levando suas palavras em outra direo. Ao se dar conta disso, ela fez um sinal para que Hugh se aproximasse.  Suba atrs de mim e preste ateno.
O convite foi aceito com tanto entusiasmo que Natasha teve suas suspeitas confirmadas sobre Hugh ter mentido sobre aquela ser sua primeira vez a praticar o windsurf.
Embora fosse mais difcil manejar o equipamento com o peso de duas pessoas, Natasha conseguiu manter o equilbrio. O vento estava bom aquela manh. Bastou que ele atingisse a vela no ngulo certo e eles puderam deslizar pelo mar com a graa de um cisne.
Natasha estava usando um de seus biquinis preferidos. Ele era bonito e discreto, em tons de azul e verde. Mas estava se sentindo nua pois cada vez que Hugh roava em seu corpo com o peito ou as coxas, eles ficavam pele contra pele.
A tenso era tanta que Natasha sentiu os mamilos enrijecerem e se projetarem sob o tecido. Perturbada, soltou a corda e a prancha comeou a entortar. Hugh corrigiu prontamente a posio, com uma reao instintiva prpria de um navegador experiente, no de um amador.
Voc aprendeu depressa  Natasha observou, sarcstica.
	Graas a voc que  uma tima professora.
	Eu no tenho nada a ver com isso. Voc j praticou windsurf antes.
	Algumas vezes  Hugh admitiu.  Mas como voc no parecia disposta a largar aquele livro, eu tive de inventar uma desculpa para me aproximar.
E agora ele estava prximo demais, Natasha pensou. Aquele corpo alto e musculoso parecia estar tocando-a em todas as partes.
	Voc  um mentiroso!  Natasha esbravejou.
Em vez de se desculpar, Hugh riu da situao.
	Oh, no. Tenho muitos defeitos, mas no costumo mentir. A ocorrncia de hoje foi excepcional. Quando me conhecer melhor, ver que tenho razo.
	Eu no quero conhec-lo melhor  Natasha respondeu.  Alm de mentiroso, aposto que trapaceia com as cartas.
	Se fosse verdade, acha que eu teria perdido todo aquele dinheiro?
Natasha tentou permanecer sria, mas a vontade de rir foi maior.
	Voc sempre tem uma resposta para tudo?
Como ele no respondesse, Natasha ergueu os olhos e no pde mais afast-los.
	Neste momento no consigo pensar em nenhuma. Voc  ainda mais bonita quando ri, sabia?
Natasha sentiu-se derreter por dentro, mas antes que pudesse se entregar s delcias de um flerte, a prancha comeou a se inclinar.
Por mais que tentasse se equilibrar, Natasha percebeu que o esforo era intil. Os pequenos movimentos que fez serviram apenas para adiar o momento. E no instante exato que os corpos tombaram para trs, Natasha sentiu Hugh abra-la pela cintura.
Os dois emergiram rindo como duas crianas. A gua estava clara e morna e o efeito do sol sobre as gotculas que se espalharam como um chafariz pareceu transform-las em pequenos diamantes.
De repente, Natasha sentiu que Hugh girava seu corpo de forma a ficarem de frente um para o outro. Suas bocas estavam to prximas que ela soube que um beijo seria inevitvel.
No fez nada no sentido de afastar Hugh. Ao contrrio. Era como se estivesse esperando por aquele beijo desde que seus olhos o perceberam pela primeira vez. Como se estivesse querendo adivinhar como se sentiria ao ser beijada por ele.
O calor daquela boca era muito maior do que havia sonhado. Sentiu-se tonta, incapaz de raciocinar. Quando Hugh percorreu lentamente seus lbios com a ponta da lngua, ela pensou que as pernas fossem ceder a seu peso.
Suas defesas contra os homens foram abandonadas por completo. Nunca havia sido beijada daquela forma. Depois de provar seus lbios, Hugh introduziu a lngua em sua boca aos poucos com movimentos suaves mas constantes at conhec-la milmetro por milmetro em uma invaso carinhosa e ertica ao mesmo tempo.
Os corpos e as pernas estavam to juntos que os mamilos enrijeceram ao roar das peles. Sem que ela pudesse dizer quando acontecera, seus braos haviam se enroscado ao pescoo de Hugh e as mos dele haviam descido ao longo de suas costas e parado em suas coxas.
Todos esses detalhes, porm, s foram percebidos depois que Natasha se recuperou do impacto inesperado do beijo.
Ela no pde resistir  doura da tentao que a invadia. Jogou a cabea para trs no af de respirar. Hugh, entretanto, no esperou que ela se recuperasse. Cobriu seu pescoo e colo com uma trilha de beijos e afagou os seios para depois prend-los em suas mos firmes e experientes.
O mundo em que Natasha se viu flutuando era feito de magia. As guas quentes do Caribe se fundiam com as carcias de Hugh e ela desejou que o tempo parasse. Mas a realidade a acordou em forma de uma picada dolorosa na planta do p, causada certamente por um fragmento de coral.
Natasha afastou-se e s ento se deu conta de que Hugh havia baixado a tira do biquini e exposto um seio.
	Por que fez isso?  protestou ao mesmo tempo que colocava a ala no lugar.
	Voc no adivinha?  Hugh retrucou e deu um sorriso que sugeria surpresa.  Ouvi histrias sobre sua frieza com os homens. Cheguei a pensar que nunca havia permitido que um homem a beijasse. Mas agora acho que posso afirmar que no  uma mulher inexperiente. No de todo ao menos.
Ela ergueu a mo para agredi-lo antes que sua mente tivesse condies de raciocinar, mas Hugh foi mais rpido e segurou-lhe os pulsos antes de ser atingido.
	Impetuosa e sensual!  Hugh exclamou.  Voc realmente est se revelando uma mulher diferente do que eu imaginava.
Natasha se desvencilhou e procurou refgio no fundo do mar. Quando tornou a emergir, nadou para a praia. Tudo que queria era se afastar daqueles olhos e daquele sorriso provocantes que tinham o poder de abalar sua capacidade de raciocnio.
	As apostas esto encerradas, senhores e senhoras  disse Natasha e olhou rapidamente ao redor da mesa para se certificar de que a ordem estava sendo cumprida antes de girar a roleta e soltar a bolinha de prata.
	Quinze, preto  ela anunciou e empurrou as fichas na direo dos ganhadores.
	Resolveu variar esta noite?  uma voz conhecida e sedutora soou s costas de Natasha.
Ela sentiu um forte arrepio lhe percorrer a espinha, mas no deu demonstrao.
	Eu trabalho nesta mesa tanto quanto nas outras  respondeu sem olhar para trs.
	Nesse caso, talvez eu tenha mais sorte se tambm mudar de jogo  Hugh sugeriu com um bom humor que estava comeando a perturb-la mais do que desejaria admitir.
Hugh sentou-se em uma banqueta que havia acabado de ficar vaga, bem de frente para ela. Natasha sentiu o corao bater mais forte, mas manteve o sorriso frio e profissional. Nada no mundo a faria deixar que Hugh Garratt percebesse o quanto a estava afetando. Mas por mais que se obrigasse a manter os olhos longe dos dele, eles teimavam em procur-lo.
	Obrigada, senhoras e senhores. As apostas esto encerradas.
Hugh havia colocado suas fichas no vermelho e deu preto. Natasha se recusou a fit-lo quando teve de recolher as fichas. Hugh tinha algo em mente. Ela seria capaz de jurar. S algum muito ingnuo apostaria duplamente no zero.
Trinta minutos passaram at Hugh sair da mesa com um prejuzo de cerca de dois mil dlares e uma despedida que arrancou risadas dos demais participantes e atraiu a curiosidade de metade do cassino para aquele jogo.
	Desta vez tem que dar o vermelho!  Hugh havia exclamado em sua ltima rodada aps tomar um gole de usque de um copo que ele segurava desde que se aproximara da mesa e que, estranhamente, continuava no mesmo nvel.
 O preto no pode dar cinco vezes seguidas!
Darlene se colocou ao lado de Hugh e se desmanchou em sorrisos.
	Bem, se voc est apostando no vermelho, meu dinheiro ir para o preto. Nunca vi tanto azar. Voc no se importa em perder tanto dinheiro?
	Ah,  preciso ser fiel  Hugh respondeu.  E paciente. A sorte sempre muda, mais cedo ou mais tarde. E ela ir mudar a qualquer minuto, agora.
	Eu no teria tanta certeza.
Hugh enlaou-a pela cintura.
	Espere e ver.
	Faam suas apostas, senhoras e senhores.
Atrado pela agitao em torno da mesa de Natasha, Lester se aproximou e demonstrou satisfao ao ver Hugh colocar uma pilha de fichas sobre o diamante vermelho.
As chances do jogador eram mnimas naquele tipo de jogo. Segundo a regra americana, se a bolinha parasse no zero do duplo zero, o apostador perdia. A regra inglesa era menos rgida. Nesse tipo de resultado, ao menos o apostador recuperava a metade das fichas.
Natasha havia sido contra a introduo da regra americana. Em sua opinio, a casa j ganhava mais do que o suficiente com o jogo de roleta aos moldes antigos. Mas Lester insistiu e no levou sua opinio em considerao.
Hugh no parecia se importar em absoluto com sua mar de azar. Ria alto como se tivesse bebido alm da conta e se apoiava em Darlene como se temesse cair.
 Vamos, srta. Fortuna, no quer me dar nem sequer um sorriso esta noite?
Natasha tentou ignor-lo de todas as formas. Se Hugh era do tipo que se deixava enfeitiar pelo charme de uma mulher como Darlene, ela no estava interessada.
Alis, nenhum homem que passava pela porta de um cassino a interessava. Mesmo que ganhasse. Jogadores significavam perigo imediato.
Mas sem que ela pudesse evitar, seus olhos se voltaram novamente para ele e o que leu em sua expresso deu-lhe provas de que no estava enganada. Hugh estava representando.
Por qu? Seria a nica ao redor da mesa a estar ciente da brincadeira? Na noite anterior, ela havia chegado a cogitar se Hugh estava de conluio com algum. No seria uma ttica aquela de atrair a ateno dos frequentadores enquanto um parceiro ou parceira trapaceava em outra mesa para conseguir dinheiro fcil? Mas um exame minucioso das fitas de vdeo no revelaram nada de errado.
O modo insistente como Hugh a fitava a fez lembrar a contragosto o beijo que haviam trocado e as carcias ousadas que ele lhe fizera. Para afastar a cena, ela respirou fundo e tratou de encerrar as apostas.
Hugh tornou a perder. Natasha sentiu-se aliviada ao ver lorde Neville se aproximar e distra-lo. Quando o afastou da mesa de roleta e levou-o para uma de vinte-e-um, Darlene o seguiu a tiracolo.
Era loucura, mas Natasha respirou com mais facilidade depois que Hugh se afastou. No podia se deixar afetar por aquele homem. No era de seu feitio perder a cabea por um corpo bonito e viril e por um sorriso atraente. Por outro lado, o comportamento de Hugh era intrigante. Por que ele agia como se estivesse bbado se apenas fingia ter bebido?
Obrigou-se a esquec-lo agora que estava longe de seus olhos. Em seu intervalo para descanso, verificou toda a pista de dana antes de atravessar o salo para subir a escada que levava ao apartamento onde residia.
No esperava encontrar Lester l em cima, ajoelhado ao lado do cofre da sala. Ao v-la, ele se apressou a fech-lo e a devolver a prateleira com livros ao lugar.
	A noite est prometendo  ele disse e esfregou as mos.
	Alguma novidade?  Natasha quis saber.
	Parece que nosso amigo, Hugh Garratt, vai arriscar a sorte na mesa de pquer  Lester explicou.  Ele me desafiou e eu fingi que ele havia me convencido a disputar uma partida.
As peas do quebra-cabea se encaixaram naquele instante.
	No creio que deva jogar pquer com ele, Lester  Natasha tentou dissuadir o padrasto.
Ele riu, cheio de si.
	Por que no? Se o sujeito se acha esperto o suficiente para sentar  mesma mesa que eu, por que eu deveria fugir do desafio?
Natasha balanou a cabea. Afinal, por que estava desperdiando seu flego? Lester nunca a ouvia. Alm disso, o que lhe importava se ele ganhava ou perdia dinheiro?
O mesmo se aplicava a Hugh Garratt.
	Eu no o subestimaria em seu lugar  ela se limitou a dizer.
	Acha que sou tolo?  Lester retrucou.  Eu tenho observado o sujeito nos ltimos dias. Ele  amigo daquele velho aristocrata. O que isso lhe diz?
	No muito.  Natasha deu de ombros.  O fato de serem amigos no significa que jogam da mesma forma.
	Gostou dele, no?  Lester insinuou, sarcstico.  Bem, sempre h uma primeira vez. Sempre pensei que voc tinha gelo em vez de sangue nas veias. Mas tambm pensava que era inteligente o suficiente para no se deixar atrair por um estpido como aquele. Prepare-se para uma decepo. Depois que eu acabar com ele, duvido que volte aqui.
	No diga depois que no foi avisado  Natasha respondeu.  Espero que tenha sido seu prprio dinheiro que retirou do cofre para apostar.
	Claro que foi!  Lester se defendeu e Natasha franziu o cenho. A resposta no soou rpida e indignada demais?
 No tenho nenhuma necessidade de tocar no dinheiro do cassino.
Natasha no tinha motivos reais para duvidar da honestidade de Lester, embora no soubesse a origem de sua fortuna. Como seu curador e gerente do cassino, ele recebia participao nos lucros e um timo salrio. O que ganhava, entretanto, era suficiente para tantas extravagncias? Todos os ternos de Lester eram italianos e suas gravatas de seda eram feitas  mo. Lester s fumava charutos cubanos. Todas as vezes que viajava para Miami, e as viagens eram frequentes, ele alugava um jatinho particular.
Os bons investimentos eram a explicao de Lester para seu luxuoso estilo de vida. Natasha sabi por informaes de pessoas de seu conhecimento, que haviam sido amigos de sua av, que seu padrasto no era esperto o bastante em matria de negcios. Dessa forma, era ao pquer que Natasha atribua os extras em sua fonte de renda.
	Voc pode observar o jogo, se quiser  disse Lester enquanto guardava o dinheiro no bolso do palet e saa da sala com um sorriso de orgulhosa satisfao.

CAPITULO III

A meia-noite, o cassino fervilhava. A atmosfera estava azul de fumaa e fazia muito calor. Havia verdadeiras multides em torno das mesas de roleta e de vinte-e-um e os caa-nqueis piscavam e tilintavam como se fossem pequenas aeronaves vindas de outros planetas.
Natasha estava comandando novamente uma mesa de vinte-e-um, mas as informaes sobre os acontecimentos na principal sala de carteado localizada ao fundo do cassino lhe eram trazidas a curtos intervalos.
Oito cavalheiros haviam se sentado  mesa s dez horas, mas dois j haviam sado. A menos que um tal sr. Klein tivesse sorte na jogada seguinte, o jogo continuaria com apenas sete participantes.
	Lester est ganhando um bom dinheiro esta noite  algum observou.
	Eu me cuidaria se estivesse no lugar dele  comentou outro algum.  O ingls parece estar estudando-o.
Natasha se limitou a ouvir. A essncia do pquer era o controle da mesa, a capacidade de adivinhar o jogo do adversrio lendo sua ttica sem deixar ele ler sua prpria. De qualquer forma, ela no tinha certeza de ter lido corre-tamente a ttica de Hugh Garratt. Seria ele um tolo como Lester acreditava? Ou um homem muito esperto?
As horas foram passando sem que o sorriso de Natasha trasse sua agitao interior.
Quando a lotao do cassino comeou a diminuir, Natasha fechou sua mesa e verificou o andamento das demais. Como estava tudo em ordem, resolveu dar uma espiada na sala de carteado que era protegida por cortinas e por vidros que permitiam que os curiosos vissem o que acontecia sem que os jogadores fossem incomodados.
Hugh parecia tranquilo. Ele havia tirado o palet e colocado-o no encosto da cadeira. A gravata estava frouxa e o colarinho desabotoado. As mangas da camisa estavam enroladas at os cotovelos. Natasha notou que ele usava um relgio Cartier de ouro no punho bronzeado, carssimo mas discreto. Notou tambm que mantinha um copo com uma dose de usque  mo, embora no levasse a bebida  boca.
Como se tivesse pressentido que estava sendo observado, Hugh ergueu a cabea e seus olhares se cruzaram de uma forma que sugeria a partilha de um segredo. Ele parecia estar dizendo que sabia que ela havia notado o que ningum mais percebera: que no era tolo como fizera crer e que estava se preparando para surpreender seus adversrios.
Passava das duas e meia da manh, mas naquela sala como no resto do cassino o tempo no tinha importncia. Dia e noite no existiam por trs das pesadas cortinas de damasco verde-escuro que cobriam as janelas.
O nico a consultar seu relgio de pulso durante o tempo que Natasha ficou observando o movimento foi lorde Neville.
	Estou precisando esticar as pernas  ele aproveitou a sada do sr. Klein para se levantar.  O que acham de um pequeno intervalo?
O sheik al-Khalid concordou com um gesto de cabea depois de olhar para seu Rolex de ouro e diamantes.
	Estou precisando de ar fresco. O que acham de uma pausa de vinte minutos?
A um sinal de Lester, o gerente da sala abriu um armrio que continha um raro relgio de bronze dourado e anunciou que o jogo seria suspenso at as trs horas.
Dois minutos depois, restaram apenas Lester e Hugh na sala. Natasha se reuniu a eles.
Lester empilhou as fichas e Natasha percebeu que ele estava ganhando dos outros at aquele momento.
Est jogando muito bem  ele disse a Hugh , mas oua um conselho. Se tiver um bom par, no se mostre ansioso por subir a aposta nas duas primeiras rodadas. Dessa maneira, voc assusta os outros jogadores e ganha menos do que poderia, caso os surpreendesse.
Hugh sorriu para Lester do outro lado da mesa e agradeceu.
	Um jogador de pquer profissional que d lies grtis a um adversrio? Trata-se de algo incomum, para no dizer raro.
Lester hesitou. No sabia se ria ou no, se estava sendo elogiado ou alvo de zombaria. Mas sua arrogncia no demorou a surgir.
	Posso me dar ao luxo de ser generoso. Ao final de mais um dia, interesso-me mais por um bom jogo do que pela quantidade de fichas que ganhei. Bem, acho que vou seguir o exemplo do sheik e tomar um pouco de ar.
Sem ser notado, o gerente estava recolhendo os cinzeiros sujos e limpando a mesa. Mesmo assim, Hugh no se levantou. Ao contrrio dos outros, no dava mostras de estar desconfortvel. No parecia estar precisando de ar, nem de movimento.
	Voc no vai aproveitar e descansar?  Natasha perguntou.  Est quente aqui.
	Bastante.
	Cinco minutos j passaram  Natasha lembrou-o.  Restam apenas quinze. Se chegar atrasado, eles no o aceitaro de volta.
Hugh tornou a sorrir, assentiu com um movimento de cabea, mas permaneceu no lugar.
Irritada, Natasha deixou a sala. Talvez estivesse enganada a respeito de Hugh Garratt. Ele j deveria ter se dado conta de que estava perdido, mas seu orgulho o impedia de admitir a verdade.
O cassino estava mais vazio e silencioso agora. Outras duas mesas de roleta haviam fechado e somente os jogadores mais srios permaneciam s mesas de vinte-e-um.
Ela os desprezava. Nem sequer sua av, provavelmente, entenderia sua averso ao jogo. No ao jogo em si, que era uma forma de diverso embora cara demais para seu gosto, mas s pessoas que faziam dele a razo de sua vida. Inclusive aquelas que viviam desses jogos e jogadores.
Ela mal podia esperar para acabar com aquele tipo de negcio. Estava contando cada dia para que os dois anos passassem depressa.
Verificou as atividades no bar e voltou para a sala de carteado, mas de forma a observar o movimento sem ser vista.
O circuito interno de televiso mostrava todas as mesas que ainda estavam em atividade. Um funcionrio observava as telas.
	Alguma observao?  Natasha perguntou.
	No, srta. Natasha. A turma de hoje est bem-comportada. Est acontecendo um jogo interessante na sala dos fundos.
Natasha examinou as telas que mostravam a sala principal de carteado. A mesa estava vazia. Hugh havia se retirado.
Ela assumiu o lugar do gerente no instante exato que o sheik se dirigiu a sua cadeira, seguido pelo bilionrio texano que era frequentador assduo do cassino. Lorde Neville foi o terceiro a se apresentar, seguido por Lester que indicou a cadeira vazia e o relgio no armrio.
	Nosso amigo parece ter desistido.
Lorde Neville encarou-o com evidente surpresa antes de olhar para o relgio.
	No acredito nisso.
As respiraes ficaram suspensas conforme os segundos passavam: dez, quinze, dezesseis. Quando o ponteiro estava para marcar o prazo final, a cortina foi erguida e Hugh se dirigiu calmamente  mesa sem dar sinais de constrangimento por todos os olhares estarem voltados para sua figura.
Natasha fechou o armrio e observou lorde Neville abrir dois baralhos novos da mais alta qualidade, retirar os coringas e embaralhar as cartas. Colocou as cartas empilhadas diante do sheik, por fim, e pediu que ele cortasse.
O clima tornou-se ainda mais tenso, o jogo mais agressivo e as apostas subiram vertiginosamente. Lester continuava  frente, mas lorde Neville tambm estava ganhando um bom dinheiro. At mesmo Hugh no estava de todo mal.
Vrias vezes surpreendeu-o encarando-a. Mas sempre que seus olhos o procuravam, Hugh estava atento a algo diferente. At que uma vez seus olhares se encontraram e ela no conseguiu escapar. Sua pulsao acelerou e a forou a entreabrir os lbios para respirar.
Lorde Neville ajudou-a a recuperar o controle ao fazer uma observao com a voz que denotava um consumo mais do que tolervel de lcool, mas que no interferia em sua sagacidade perante o jogo, pelo que Natasha j pudera perceber.
Lester estava nervoso, embora ningum que no o conhecesse bem no pudesse dizer. Ele estava apostando pesado na tentativa de intimidar os jogadores menos seguros, o que no significava que detivesse as melhores cartas.
Quanto a Hugh, Natasha no saberia dizer se ele estava ou no escondendo seu jogo pois continuava calmo e relaxado. A postura divertida das noites anteriores havia desaparecido. Sua expresso tornara-se fria e atenta.
E ele realmente sabia jogar pquer! O que a fazia pensar que se fingira de tolo deliberadamente para atrair Lester para a mesa.
Natasha quase perdeu o flego quando Lester e Hugh trocaram algumas palavras speras sobre quem ser melhor do que quem.
	Se todos ns sabemos o que estamos fazendo nesta mesa, por que estamos estipulando limites para apostas?
 Hugh sugeriu.  Por que no jogamos de verdade?
O silncio foi to profundo que Natasha ouviu as exclamaes mudas de surpresa.
Lorde Neville foi o primeiro a reagir.
	Eu concordo  declarou com uma risada.  E vocs?
O sheik fez que sim com a cabea.
	Eu jogo.
O texano tirou o charuto da boca.
	Eu tambm. Talvez isso mude minha sorte.
A palavra final cabia a Lester. Ele estendeu a mo, pegou uma ficha, bateu-a contra a mesa como se precisasse de tempo para se decidir.
	Est bem. Com quanto comeamos? Mil dlares?
	Por que no dez mil?  Hugh sugeriu.
	Sim. Por que no?  Lester concordou.
Natasha sentiu um arrepio lhe percorrer o corpo. Daquela vez, seria uma batalha de vida ou morte.
A expectativa era geral  medida que as cartas eram distribudas. Quando os jogadores comearam a pedir mais fichas, as respiraes ficaram suspensas.
Al-Khalid rabiscou sua assinatura em uma requisio e Natasha contou as fichas conforme as entregava.
	Deseja comprar mais fichas?  ela perguntou a cada um e a Hugh por ltimo.
Ele disse que sim e sorriu com cumplicidade. Natasha corou. A sensao que tinha era de que Hugh estava acariciando-a com os olhos. No teria se sentido mais excitada se o toque fosse real. Os mamilos enrijeceram sob a seda. Hugh olhou para eles como se tivesse adivinhado o que estava acontecendo.
Natasha tentou afastar seus olhos dos de Hugh, mas viu-se prisioneira na teia de seduo que ele estava tecendo ao seu redor. O mundo deixou de existir para ela naquele momento e o cassino com ele. Em sua imaginao, Hugh estava despindo-a e exigindo sua entrega total.
	E a? Voc vai jogar ou no?  Lester indagou, nervoso.
Era o que Hugh havia esperado que acontecesse, Natasha deduziu. Seu modo de agir era proposital. Ele estava querendo fazer os outros esperarem. O flerte com ela fazia parte do plano. O que a fez cogitar se a atrao que ele demonstrara sentir era genuna ou falsa.
	Quero trocar uma carta  Hugh afirmou.
O crupi entregou a carta solicitada e Hugh a colocou no meio das outras. Seria impresso ou ele havia gostado realmente da compra? Ele havia sorrido? Mas se as cartas eram boas, por que Hugh estava se traindo? Seria um blefe? Natasha olhou para Lester e percebeu que os mesmos pensamentos circulavam em sua mente.
Natasha olhou para seu relgio de pulso e soube que passavam alguns minutos das cinco e meia. L fora, os passarinhos estavam comeando a anunciar o nascer de um novo dia. A brisa fresca que vinha do mar soprava sobre os coqueiros que enfeitavam a praia e o cu azul j estava mais claro do que escuro em sua tonalidade.
Na sala de carteado, contudo, o tempo havia parado. Natasha havia perdido a conta da quantidade de fichas que havia sido colocada no centro da mesa. Pareciam blocos coloridos com os quais as crianas gostavam de brincar. Era incrvel pensar que ali havia uma verdadeira fortuna.
O sheik e o texano haviam sado do jogo, mas lorde Neville parecia confiante em sua mo. Natasha torceu para que ele fosse o vencedor. Isso a pouparia de decidir se deveria sentir pena ou satisfao por Hugh.
De repente, Lester aumentou ainda mais a aposta, com um sorriso arrogante. Natasha sentiu o sangue congelar nas veias. Cem mil dlares. Era dinheiro demais para arriscar na virada de uma carta. O jogo de Hugh parecia fraco: um rei e um oito. Sua chance de vitria era de menos de dez por cento. Principalmente porque Lester tambm contava com um rei.
Hugh continuava calmo e tranquilo. No tinha o aspecto de um homem prestes a arriscar mais dinheiro do que a maioria das pessoas consegue reunir em uma vida inteira. No que ela se importasse que ele perdesse. Desprezava todos os jogadores. Se, no fundo, queria que Hugh ganhasse, era somente porque queria ver Lester perder.
Todos os olhares estavam agora sobre Hugh, mas nada o abalava. Seu sorriso era dirigido a Lester do outro lado da mesa.
	No acredita que eu seja capaz de ter um jogo melhor do que o seu? Pois bem, eu dobro sua aposta.
Lester fez um som que lembrou Natasha de uma serpente.
	Voc confia demais em sua sorte.
Hugh ergueu uma sobrancelha.
	Sorte? Eu no preciso de sorte para ganhar de voc.
O veneno finalmente foi destilado. Lester empalideceu. Por um instante, Natasha teve a impresso de que ele iria partir para cima de Hugh, fisicamente. Mas ele se limitou a franzir o cenho.
	As cartas decidiro.
Natasha sorriu consigo mesma. Outro passo estudado de Hugh. Ele queria enfurecer Lester e havia atingido seu ob-jetivo. Um jogador irritado era um jogador descuidado. Aquilo no era um jogo qualquer. Uma forte suspeita comeou a se tornar certeza. O caso era pessoal. Mas como se os dois homens se conheciam havia apenas dois dias?
Lorde Neville riu e tomou um grande gole de usque. Depois balanou a cabea e colocou as cartas na mesa, voltadas para baixo.
	E demais para mim. Estou fora.
Um murmrio percorreu a sala. Lorde Neville era uma figura popular no cassino, estando sbrio ou bbado. Ele nunca perdia o humor. Era um perfeito cavalheiro. Visitava a ilha trs ou quatro vezes por ano, geralmente acompanhado por homens de seu tipo, e eles no faltavam a nenhuma noite no cassino durante as duas semanas de permanncia.
Era a primeira vez que ele voltava  ilha menos de um ms aps sua ltima visita, o que, por si s, era um fato estranho. E em vez de se fazer acompanhar por uma pequena multido, Hugh Garratt era seu nico acompanhante.
Quando chegou a vez de Lester jogar, ele se mostrou hesitante. O suor porejava de sua testa. Seus olhos estavam fixos nas cartas de Hugh, voltadas para baixo. Natasha sabia o que se passava em sua mente: Hugh Garratt estava blefando? Tinha de estar!
	Ok!  ele disse por fim e chamou Hugh de lado. Ela notou que suas mos tremiam ao abrir a pasta e lhe entregar quatro maos de notas.  Eu torno a dobrar.
A tenso era tanta que podia ser partida. Havia mais de meio milho de dlares em jogo. E a nica pessoa calma na sala continuava a ser Hugh Garratt.
Ento, com uma lentido deliberada, ele comeou a contar suas fichas e a empurr-las para o centro da mesa.
Eu pago para ver.
Lester respirou fundo e deu um sorriso de triunfo.
	Full housel  ele anunciou e mostrou trs reis e dois cincos.  Voc tem um jogo melhor?
Era bvio que Lester fez a pergunta sem esperar uma resposta. Mas Hugh continuava sorrindo daquele jeito irnico que tanto irritava seu adversrio. Seu rei e seu oito continuavam expostos. E as outras cartas foram sendo reveladas, uma por uma. Um oito de espadas, um oito de ouros e um oito de copas.
	Quadra. Meu jogo vence o seu.
Eram seis horas da manh, mas ningum parecia disposto a ir para casa. O clima era de festa. Lorde Neville puxou algumas fichas das pilhas do amigo e deu-as ao barman com instrues para que todos tomassem um coquetel por conta do vitorioso da noite. Natasha foi para trs do balco para ajudar o barman. Lester desapareceu.
A nica pessoa que no parecia fazer parte da festa era o prprio Hugh Garratt. Ele no se levantou da mesa. Aceitou os cumprimentos com cordialidade, mas sem nenhum entusiasmo.
Levou algum tempo para a situao acalmar. Naquele instante, Natasha se dirigiu  sala de carteado e abriu as cortinas.
Hugh olhou-a e sorriu com ar inquisitivo. Ela cumprimentou-o de onde estava.
	Parabns. Foi um bonito jogo.
Ele sorriu com ironia.
	No se importa de eu ter tirado todo aquele dinheiro de seu padrasto?
	Por que deveria?  Ela deu de ombros.  O dinheiro  dele e o problema  dele se prefere gast-lo em jogatinas.
O olhar inquisitivo persistiu.
	Sua famlia no parece ser muito unida.
	Digamos que no.  Natasha indicou as fichas.  Mandarei o chefe dos caixas providenciar a contagem. Gostaria de nomear uma testemunha independente? Lorde Neville, talvez?
Hugh fez um movimento negativo com a cabea.
	Eu confio em voc. Alm disso, Nev no conseguiria nem sequer contar os dedos das mos no estado em que se encontra.
Natasha concordou com um pequeno sorriso. Em seguida chamou Jos, o chefe dos caixas.
	Parabns, senhor  ele disse.  Foi o melhor jogo de pquer a que assisti nos ltimos tempos.
	Obrigado.
Jos sentou-se  mesa e olhou para as fichas com admirao e respeito.
	Se quiser me acompanhar, esteja  vontade. Ao final, se ns dois chegarmos ao mesmo valor, o cassino lhe fornecer um cheque.
Natasha observou a cena em silncio ao mesmo tempo que recordava cada movimento de Hugh e de Lester. Hugh havia induzido seu padrasto a acreditar que ele estava blefando. E, confiante em sua esperteza, Lester havia cado na armadilha.
De qualquer forma, o importante era Lester ter recebido o que merecia. Quanto a ela, o melhor que tinha a fazer era esquecer que conhecera Hugh Garratt. Em breve ele estaria partindo para a Inglaterra, para a vida que levava, talvez para uma esposa ou uma namorada, enquanto ela continuaria em Spaniard's Cove, esperando o tempo passar.
Terminada a contagem de fichas, o cheque foi preenchido e assinado pelo diretor do cassino e segundo curador da fortuna, e contra-assinado pela prpria Natasha.
Natasha entregou-o a Hugh com um floreio e um brilho malicioso nos olhos azuis. Afinal, a representao havia sido impecvel e o objetivo alcanado. Hugh havia conseguido atrair Lester para uma armadilha, aproveitando-se da fraqueza do outro em matria de ganncia e soberba.
	Seu prmio, sr. Garratt.
	Obrigado  Hugh agradeceu e guardou o cheque no bolso sem conferi-lo. Em seguida, se levantou e estendeu a mo para o chefe dos caixas.  Boa noite. Ou melhor, bom dia.
	Bom dia para o senhor tambm  o funcionrio respondeu no apenas por cordialidade mas por respeito e admirao. E, talvez, por uma pitada de satisfao por algum ter conseguido vencer o arrogante Lester que no era estimado por ningum no cassino pelo que Natasha sabia. Por causa de outros incidentes como aquele da garagem?
O cassino estava quase deserto quando Natasha acompanhou Hugh  porta. As mesas estavam fechadas e poucos continuavam arriscando a sorte nos caa-nqueis. O ar estava estagnado. Natasha franziu o nariz ao cheiro.
	O dia seguinte  Hugh murmurou ao surpreender o gesto.  No lhe  agradvel, no?
	Confesso que prefiro ver o lugar limpo e arejado.
	Eu no estava me referindo  fumaa.
Natasha hesitou. Como poderia explicar a um homem que acabava de ganhar meio milho de dlares em uma mesa de pquer que desprezava os jogadores e a vida dentro de um cassino? Como poderia faz-lo enxergar o lado escuro do negcio? Os desesperados que se punham a chorar depois de perderem o pouco que tinham? Os viciados que apostavam a prpria famlia nos dados?
	Conte-me, Natasha. Se no gosta do negcio, por que vive disso?
- A escolha no foi minha  ela respondeu sem esconder sua frustrao.  Infelizmente, o testamento exige que eu responda a dois curadores. No tenho autonomia aqui dentro. No tenho poder para efetuar nenhuma mudana.
	Devo entender que seus curadores no aprovam mudanas?
	Meu tio Timothy, o diretor do cassino, sempre concorda com minhas ideias.
	Ento o problema  Lester  Hugh deduziu.
	Mas no prazo de dois anos, eu estarei livre dos termos do testamento  Natasha explicou.  Mal posso esperar para me livrar dele.
	Dois anos?  Natasha pressentiu mais uma vez que havia mais do que uma curiosidade normal da parte de Hugh Garratt nos assuntos do cassino.  Quer dizer que voc ter de esperar at completar vinte e cinco anos? Ou, ento, casar?
Por uma razo inexplicvel, as palavras de Hugh fizeram o corao de Natasha bater mais forte.
	Sim, mas eu duvido que... Quero dizer, duvido que isso acontea.
Eles alcanaram a porta e Natasha contemplou a baa. Uma bruma prateada cobria o mar e subia mansamente at as encostas das montanhas vulcnicas que cercavam a praia de corais, A brisa estava mida de orvalho.
	Adoro este lugar.  to lindo... --- Natasha respirou fundo e falou quase consigo mesma.
	Voc quer se livrar de Lester?  Hugh indagou em voz to baixa que Natasha teve dvidas se havia imaginado a pergunta.
Ela fitou-o e antes que pudesse responder, Hugh murmurou:
	H uma maneira.
	O que sugere?  ela perguntou, rindo.  Que eu coloque um anncio no jornal ou que procure uma agncia matrimonial?
Hugh negou com um movimento de cabea.
	No me referi a nenhuma dessas alternativas. Estava pensando que voc poderia casar comigo.

CAPITULO IV

A proposta foi to inesperada que Natasha io conseguiu responder. Um n fechou sua garganta. Os olhos no poderiam traduzir maior espanto. Os olhos cinzentos brilhavam, divertidos.
	 simples. Ns nos casamos e voc se torna dona do cassino para fazer com ele o que quiser. Acima de tudo, ficar livre de Lester de uma vez por todas.
	Mas... eu no posso casar com voc  Natasha protestou, ainda com dificuldade para respirar.  Eu mal o conheo.
	Isso  verdade  Hugh admitiu.  Talvez deva procurar algum em quem confie para ser seu marido.
	No h ningum.  Natasha queria raciocinar, mas sua mente se recusava a funcionar. Foram emoes demais em uma s noite e tambm cansao e falta de oxignio.  Francamente, esta conversa  absurda.  Natasha estendeu a mo e sorriu seu sorriso profissional.  Obrigada pela sugesto, mas eu no tenho planos de me casar nem com voc nem com ningum. Boa noite, sr. Garratt. Ou, como disse h pouco, bom dia.
Hugh encarou-a por um momento de um modo enigmtico. Por fim aceitou a mo que ela lhe estendera, mas em vez de apert-la, levou-a aos lbios e beijou cada um dos dedos.
	Pense a respeito, srta. Cole. Tive um prazer imensoem conhec-la.
Ele se afastou e Natasha acompanhou-o com os olhos at que desaparecesse sob a sombra dos coqueiros. Os pensamentos ricocheteavam por sua cabea. Hugh Garratt no viera ao cassino apenas para jogar pquer. Ele tinha algo contra Lester e era pessoal. O que poderia ser? E estava realmente atrado por ela ou isso simplesmente fazia parte de um plano de vingana?
No podia deix-lo ir embora sem uma explicao.
	Hugh! Espere!
No esperou que ele voltasse at ela, mas correu em sua direo.
	Quem  voc?  perguntou quando ele se voltou, surpreso.
 Por que veio aqui? No  um jogador profissional, ?
	Como chegou a essa concluso?  ele se limitou a perguntar.
- Se fosse um jogador, eu j o teria visto ou ao menos ouvido falar a seu respeito. Bons jogadores de pquer se tornam famosos em um piscar de olhos. O que veio fazer aqui diz respeito a Lester, no?
Hugh hesitou, como se no tivesse certeza se deveria ou no confiar em Natasha. Mas acabou concordando com um gesto.
	Por qu?  ela insistiu.  Vocs no se conheciam at esta noite. Ao menos Lester no o conhecia. O que ele fez para que voc se desse ao trabalho de vir a este lugar?
	Tive minhas razes  Hugh murmurou.  No quero envolv-la nisso.
	Eu j estou envolvida  Natasha garantiu.  Sou a dona deste cassino, caso tenha esquecido.
	No, eu no esqueci  Hugh respondeu, cabisbaixo.  De certa forma, voc est envolvida. Muito envolvida. Talvez tenha o direito de conhecer toda a histria, realmente.
Natasha respirou fundo. Ento ela estava certa desde o comeo. E a verdade estava prestes a ser revelada.
	Estou exausto. Preciso dormir antes  Hugh respondeu e novamente lhe deu aquele sorriso irresistvel.  Mas eu lhe contarei tudo esta noite, se aceitar jantar comigo.
Natasha recuou por instinto de defesa.
	Jantar com voc? Mas...
	No aceita jantar com jogadores?  ele a desafiou.
 Nem para saber o motivo que me trouxe aqui?
A voz da razo lhe dizia para ter cuidado, mas uma outra voz sugeria que aceitasse o convite.
A voz da razo perdeu. Ela precisava, afinal, conhecer aquela histria entre Hugh Garratt e Lester.
	Est bem. Jantarei com voc esta noite.
Hugh no disse nada. No era preciso. Seus olhares se prenderam um ao outro e ela no teve foras para se afastar quando ele, muito devagar, mergulhou os dedos em seus cabelos e a puxou ao encontro dele.
Ao ver o rosto de Hugh se aproximar do dela, Natasha, pensou que estava sendo dominada por uma fora maior que a da gravidade. Sentia a respirao quente em seu rosto conforme os braos musculosos se enroscavam em seu corpo.
Quando Natasha fechou os olhos, Hugh beijou-a suavemente nas plpebras, depois nas tmporas e nas faces. Quando reclamou seus lbios, ele deixou de ser apenas carinhoso, para se tornar sensual tambm. A lngua percorreu a maciez dos lbios e as partes secretas da boca, deixando-a fraca e lnguida.
A respirao tornou-se ofegante. Sem que percebesse, Hugh a havia empurrado at uma rvore. Ela no tinha como escapar. Suas costas estavam apoiadas no tronco e os seios pressionados pela rigidez do peito msculo.
Os lbios de Hugh a abandonaram por um instante para percorrerem uma trilha que comeava no queixo, passava pelo pescoo e terminava na curva dos seios.
No momento que Hugh ergueu as mos para acarici-los, o canto de um pssaro nos ramos da rvore que os abrigava a fez voltar a si, perplexa com o desejo que Hugh lhe despertara com seus beijos.
	Pare com isso  Natasha pediu ao mesmo tempo que olhava ao redor com receio de que algum pudesse t-los visto.
 sua frente, Hugh sorria, divertido,
	No se preocupe. Estamos sozinhos.  Ele tornou a segurar a mo de Natasha e a beij-la.  Virei busc-la s oito.
Antes que Natasha pudesse se recuperar o suficiente para responder, Hugh se afastou.
Natasha estava confusa. Como o deixara convenc-la a jantar com ele? O bom senso a aconselhava para fugir enquanto havia tempo. Seria perigoso demais ficar sozinha com aquele homem.
Logo aps o almoo, Natasha ouviu uma batida  porta do escritrio.
	Entre.
Era Debbie e seu rosto estava inchado de chorar.
	Desculpe incomod-la, Natasha, mas Lester est pssimo.
	No  de admirar  Natasha respondeu.
	Sim, mas... Tenho medo de que ele cometa uma loucura.
Uma loucura maior do que perder quase meio milho de dlares em uma mesa de jogo?
	Como o qu?  Natasha perguntou, sem se referir ao pensamento que lhe ocorrera, por pena da outra mulher.
	Eu no sei.  Debbie entrou na sala e foi at a escrivaninha.  O que ele diz no faz sentido. Lester se trancou no apartamento e est mexendo no cofre e eu sei que ele tem uma arma.
	Quer que eu tente falar com ele?
	Voc faria isso? - A expresso de alvio de Debbie a convenceu a tentar ajudar. Sua interferncia irritaria Lester ainda mais, provavelmente, mas a confiana que Debbie depositava nela no podia ser trada.
	Claro que sim. Subirei em um minuto.
Natasha colocou de lado os contratos que estava examinando. O trabalho poderia ficar para mais tarde. O importante agora era ver Lester e tentar entender como algum podia ser to tolo a ponto de provocar um imenso rombo em sua prpria conta bancria.
O feitio virara contra o feiticeiro. Quantas vezes Lester levara pobres-diabos a perderem mais do que tinham com sua fala macia sobre arriscarem a sorte grande?
O pensamento de que Lester perdera dinheiro demais naquela noite voltou a assalt-la. De onde ele provinha? De outros jogos? No acreditava nisso. De investimentos? Lester era um desastre nesse campo.
As perguntas a conduziram inevitavelmente ao nome de Hugh Garratt. O que Lester fizera a ele para que viesse ao cassino e arriscasse meio milho de dlares em uma vingana? Afinal, ele havia lhe confessado que no era um jogador profissional. Em vez de Lester, poderia ter sido Hugh o perdedor. E ele havia afirmado que ela estava envolvida naquela histria. Como?
Acima de tudo, por que Hugh lhe fizera aquela proposta de casamento?
Natasha franziu o cenho. No deveria ter sido uma proposta genuna. No fazia sentido. O mais provvel era que Hugh Garratt estivesse se divertindo  sua custa.
Ele havia pedido que ela refletisse sobre sua proposta. Ela no fizera outra coisa. Aqueles olhos e aquele sorriso a assombraram durante o sono e durante todas as horas em que tentara trabalhar.
Um casamento de convenincia. E tambm um modo perfeito de se livrar permanentemente de Lester. Mas, poderia confiar em Hugh Garratt? E se ele fosse igual a seu padrasto? As provas que dera sobre sua capacidade de preparar armadilhas, fingindo-se de inocente, eram irrefutveis.
Lembrou-se do modo como ele a procurara na praia, tambm fingindo que nunca havia praticando windsurf. A lembrana do que havia acontecido entre eles naqueles momentos a fez corar e se levantar.
No aceitaria a proposta de Hugh Garratt nem de nenhum outro homem. Ela j havia estudado essa opo e descartado-a. No perderia nem sequer mais um minuto de seu tempo com aquela ideia.
Os lbios de Natasha estavam apertados quando ela subiu a escada que levava ao apartamento que dividia com Lester.
Introduziu sua chave na fechadura mas a porta estava trancada com a corrente de segurana. Bateu, mas no foi atendida. Tornou a bater.
	Lester?
	V embora. Estou ocupado.
O tom de voz foi rude e impaciente, mas Natasha no era Debbie e no se deixava intimidar com facilidade.
	E melhor voc abrir  ela insistiu  ou no pararei de bater.
Ouviu-o praguejar, mas a porta foi aberta aps um minuto.
	O que voc quer?  ele perguntou e lhe deu as costas, voltando a fazer o que estava fazendo at ela chegar.
Natasha olhou em direo ao cofre. A prateleira falsa de livros estava afastada. O cofre estava escancarado e havia papis espalhados pelo cho.
	O que est acontecendo aqui?
	Estou cuidando de meus negcios  Lester respondeu entre os dentes.
	Algo a ver com o que sucedeu ontem  noite?  Natasha indagou.
Ele estreitou os olhos. Debbie havia esquecido de mencionar que alm de estranho, Lester estava bbado. Natasha sentou-se no sof.
	No pode dizer que no foi avisado.
	Maldio!  Lester praguejou.  Se eu soubesse que ele era um espertalho...
Voc o subestimou. Ele o fez acreditar que era inexperiente. No cometeu nenhum crime. Voc  que no teve malcia.
	Gostaria de saber quem ele  e o que veio fazer aqui  Lester resmungou.  Tomara que j tenha ido embora.
	No creio  Natasha se limitou a dizer.
	O que pode estar querendo aquele sujeito?  Lester tornou a resmungar.
Ocorreu a Natasha, subitamente, que seu padrasto estava com medo de Hugh Garratt. O mistrio estava se tornando cada vez maior e urgente. Era preciso descobrir com urgncia de que se tratava e se Spaniard's Cove fazia parte do enigma.
	A propsito, eu vim aqui para avis-lo que terei de sair esta noite.
A deciso havia sido tomada naquele instante. Natasha tentou perguntar a si mesma quando havia mudado de ideia sobre o encontro com Hugh, mas no encontrou resposta.
	Vou jantar com ele.
Lester havia voltado para seus papis. Ao ouvi-la, deixou-os cair.
	Isso  uma espcie de brincadeira?
	Em absoluto. Ele me convidou para sair e eu aceitei.
O rosto de Lester ficou ainda mais vermelho.
	Depois do que fez comigo?
	Foi um jogo justo  ela afirmou com desprezo.
Por um instante, Natasha temeu ter ido longe demais. Lester parecia um vulco prestes a explodir. Mas ele acabou se contendo.
	Qual a razo do convite?
Natasha ergueu os ombros.
	O prazer de minha companhia, imagino.
	Oh, no. Ele no  desse tipo  Lester garantiu.  Ele no veio aqui apenas para jogar. Existe uma inteno hostil por trs.  O olhar desconfiado tornou-se maldoso.
 Voc poderia tentar descobrir o que ele pretende.  uma jovem bonita e atraente. Tenho certeza de que ele est atrado por voc. Se for esperta e persuasiva, conseguir saber.
Um profundo asco a invadiu. Com aquela fala macia, Lester lhe pareceu ainda mais insuportvel.
	A que tipo de persuaso voc est se referindo? Dormir com ele, talvez?
	Claro que no!  O protesto foi quase perfeito. Se ela no conhecesse to bem seu padrasto, teria acreditado que o ofendera.  Eu no sugeriria uma indignidade como essa!
	Claro que no!  Natasha exclamou.  Voc no seria capaz nem sequer de pensar em algo to srdido.
Com um movimento brusco, Lester guardou os ltimos papis no cofre e trancou-o.
	Est na hora de voc aprender a ser educada, mocinha. Um dia desses, acabarei perdendo a pacincia e lhe dando uma lio.
 Da mesma forma que pretendia dar uma lio em Hugh Garratt?  Natasha retrucou e se dirigiu em seguida  porta.  Tenho de voltar ao trabalho. Se vim at aqui foi apenas para tranquilizar Debbie. Confesso que no entendo como uma mulher decente como ela consegue perder seu tempo com algum como voc.
Natasha examinou-se ao espelho com olhar crtico. O lado racional de seu crebro havia desistido de lhe mandar sinais sobre o perigo do passo que estava por dar. Por mais que quisesse seguir o conselho, seu lado feminino e romntico queria aquele encontro com Hugh Garratt.
Ela havia prendido os cabelos em um coque  altura da nuca em um estilo severo mas que realava os contornos delicados do rosto. O vestido era novo embora fizesse algum tempo que o havia comprado. Era um modelo de cetim prateado com alas bem finas que dispensava o uso de suti. O nico adorno era um colar de prolas minsculas de doze voltas. Nos ps, calou sandlias prateadas de salto alto.
A excitao lhe provocava uma sensao de frio no estmago. Os olhos azuis pareciam estrelas de tanto que brilhavam. At reunir coragem para sair do apartamento e descer a escada que levava ao cassino, Natasha precisou respirar fundo muitas vezes.
O assistente de Lester estava fazendo as vezes do chefe aquela noite. Seu padrasto no era visto desde o incio da tarde. Natasha se lembrou da conversa que tiveram e franziu o cenho. O que poderia ter acontecido para Lester ter medo de Hugh Garratt? Podia ser parania de sua parte, mas seu sexto sentido lhe dizia que havia algo de errado naquela histria.
Era difcil imaginar que Hugh Garratt poderia ter algum tipo de envolvimento com seu padrasto, embora indireto. Mas, o que ela sabia sobre Hugh, afinal, alm de ele ser um exmio jogador de pquer? E um excelente ator tambm? Os dois atributos costumavam andar de mos dadas e no eram indicativos de confiana.
Teria de ser cautelosa aquela noite. Principalmente se Hugh recorresse  tcnica da seduo. As amigas no acreditavam, mas embora fosse bonita e assediada pelos homens, ela ainda no havia perdido a virgindade.
Havia uma razo para sua inexperincia. Nenhum homem at aquele dia conseguira conquist-la. Mas Hugh era diferente. Se ela no fosse forte, ele chegaria facilmente a seu corao, assim como j chegara a seus sentidos.
Uma rpida consulta ao relgio lhe disse que eram quase oito horas. Seguiu para o hall e cumprimentou os clientes com um sorriso de boas-vindas. Queria estar ocupada quando Hugh chegasse. No podia trair sua ansiedade, dando a impresso a ele que estava esperando-o, sem condies de se concentrar em outra coisa.
No precisou fingir. Ao passar pela recepo, um dos funcionrios fez um sinal de que precisava lhe falar com urgncia. Ela procurou o assistente de Lester com os olhos e encontrou-o atrs de uma das caixas, ocupado em resolver algum assunto.
Decidida a verificar ela mesma de que se tratava, foi at o recepcionista e constatou que o problema se referia ao fato de um dos visitantes ter esquecido de trazer seu passaporte.
Aps verificar que ele estava hospedado em um dos hotis da ilha, ela ligou para o gerente do tal hotel e solicitou que ele lhe enviasse um fax do documento.
Resolvido o caso, Natasha estava devolvendo o fone ao gancho, quando ouviu a voz de lorde Neville junto ao balco.
	Eu acho perigoso demais voc continuar por aqui de pois do dinheiro que ganhou.
Natasha escondeu-se atrs da porta do escritrio para no ser vista e espiou por uma fresta para se certificar de que era com Hugh que ele estava falando.
	Eu no acho. Agora que comecei, irei at o fim.
	E Natasha?
Ela ouviu Hugh rir baixinho.
	Ah, a adorvel srta. Natasha Cole...
A aproximao de um grupo de visitantes a impediu de ouvir o resto da conversa. Continuou atenta, mas a nica coisa que viu foi Hugh e lorde Neville assinarem o livro de entrada no cassino e se afastarem em direo ao salo de jogos.
Deus! O que estava acontecendo? Por que lorde Neville achava que poderia ser perigoso? E que negcio era aquele que Hugh queria terminar?
Jantar com Hugh agora era uma necessidade. S ele poderia lhe fornecer as respostas para suas perguntas.
Natasha saiu de seu esconderijo e se dirigiu  rea reservada para os caa-nqueis. Queria dar a impresso de que estava na sala de jogos. Em vez de seguir Hugh, ela iria ao encontro dele. Ou melhor, ficaria no bar  espera dele.
Todos os olhares masculinos estavam voltados para ela quando Hugh a avistou. Ela sorriu intimamente. A longa prtica havia lhe conferido a habilidade de fingir que estava tudo bem, embora seus pensamentos estivessem caticos.
	Ol  ela o cumprimentou, arrepiada de prazer com o olhar de admirao que percorreu seu corpo.
	Ol  Hugh respondeu.  Gostaria de tomar um drinque antes ou podemos ir?
	Se lorde Neville no se importa, prefiro ir agora  Natasha respondeu, sincera.  Voc sabe como . Se eu ficar, acabarei tendo de resolver problemas que, via de regra, acontecem todas as noites. Nada de srio, mas que poderia tomar nosso tempo.
	Era o que eu esperava que dissesse  Hugh murmurou.  At depois, Nev.  Hugh acenou para o amigo e conduziu Natasha pelo brao em direo  sada.
Desmond's era o melhor restaurante da ilha e era preciso fazer reserva para conseguir uma mesa, mas como Natasha conhecia o dono desde que era criana, assim que a viu ele a cumprimentou com efusivos beijos nas faces.
	Natasha, minha querida! Quanto tempo! Como vo os negcios? Soube sobre ontem  noite. Aposto que Lester est com uma dor de cabea daquelas!  O homem deu uma risada.  O velho Lester nunca soube perder.
	Como pode imaginar, ele no est nada satisfeito  Natasha afirmou.  A propsito, esta  a pessoa que o derrotou.
 Natasha apresentou Hugh. - Hugh Garratt, Desmond.
O sorriso de Desmond aumentou.
	Deixe-me apertar sua mo! Um homem capaz de arrancar meio milho de dlares de Lester Jackson merece ter seu nome em meu livro. Venham comigo. Isto merece uma comemorao. Quero que se sentem  melhor mesa da casa. O champanhe ser por minha conta. No que voc no tenha condies de pagar a despesa,  claro.  Ele piscou para Hugh.  Meio milho de dlares! Confesso que gostaria de estar em seu lugar.
A mesa ficava em um canto do terrao e conferia bastante privacidade a seus ocupantes. A vista da baa de St. Paul era esplndida. Com o pr-do-sol, o mar estava mais escuro, mas ainda continuava azul. Ao longe, as ilhas pareciam pequenos pontos cinza-esverdeados. O cu estava azul-cobalto.
Havia msica ao vivo no restaurante e as notas se misturavam  brisa suave que soprava do mar.
Desmond abriu pessoalmente a garrafa de champanhe e serviu a bebida em duas taas de cristal. Aps entregar o menu, deixou o casal a ss para que pudessem escolher os pratos  vontade. Natasha sentiu-se aliviada e tensa ao mesmo tempo porque a simples presena de Hugh fazia seu corao bater mais depressa.
Sua perturbao era tanta que receou no conseguir jantar, mas os pratos da cozinha crioula, que eram a especialidade da casa, estavam to deliciosos que ela no teve problemas nesse sentido. A entrada foi uma maravilhosa sopa fria de caranguejo seguida por galinha ao molho de manga e gengibre. A sobremesa de banana assada com rum e sorvete de coco estava simplesmente divina.
O champanhe bem gelado e borbulhante era um complemento perfeito  comida extica, mas Natasha teve a precauo de no passar de duas taas. Conhecia o efeito do lcool nas pessoas e naquela noite, em especial, precisava estar em domnio perfeito da razo.
Voc se tornou famoso  Natasha murmurou ao notar que vrios pares de olhos estavam voltados para Hugh.  A notcia de seu feito se espalhou como rastilho de plvora.
Hugh sorriu, sem se importar por ser alvo de comentrios.  Estou curiosa  Natasha confessou.  Se no  um jogador profissional, como ganha sua vida?
	Trabalho no ramo de construes.
	Onde aprendeu a jogar pquer?
	Com alguns dos homens com quem trabalhei em uma locao. As fichas eram palitos de fsforo. Voc no vai acreditar, mas aqueles sujeitos fazem os frequentadores de seu cassino parecerem aprendizes de uma escola dominical.
Natasha no pde evitar o riso. Hugh era divertido. Os assuntos fluam durante a conversa. Eram interessantes e bem-humorados. Hugh quis saber a histria da ilha e ela se viu falando com naturalidade sobre as invases de piratas em tempos antigos, sobre os pssaros que viviam nas rvores que cobriam as encostas das montanhas ao redor da baa e sobre a campanha que estava sendo feita pelos ecologistas para a proteo dos recifes de corais existentes nas praias.
Era preciso, contudo, manter a mente alerta apesar do convite ao relaxamento feito pelo ritmo suave das msicas que falavam das guas tranquilas e claras do Caribe, agora escuras sob o manto de veludo negro e pedrarias.
Sua presena naquele restaurante obedecia a um propsito. No estava ali por prazer apenas. Ela estava decidida a levantar o assunto assim que o garom lhes trouxesse o caf.
	Muito bem  Natasha disse por fim.  Eu cumpri minha parte e jantei com voc. Agora quero que me conte o que o trouxe a Spaniard's Cove.
Como sempre, Hugh riu para ganhar tempo, uma de suas caractersticas que Natasha havia aprendido a conhecer.
	Antes quero danar com voc.
Natasha hesitou ao ver Hugh se levantar e lhe estender a mo, mas no conseguiu recusar.
	S uma msica, combinado?
	S uma msica  Hugh prometeu.
CAPITULO V

Hugh danava bem. Segurava-a com firmeza, sem ser inconveniente. Sua mo repousava na base de sua coluna de uma maneira sensual e possessiva. O que estava fazendo com ela era quase uma provocao. Ao mesmo tempo, no podia censur-lo.
Danaram uma msica. Quando ela fez meno de se afastar, o cantor pediu que o pblico o acompanhasse com palmas e nenhum dos casais pde se afastar da pista, contagiados pelo ritmo alegre e rpido.
De um modo hbil, o cantor cativou o pblico e sugeriu que se entregassem ao balano da msica quente. Hugh estava olhando para ela daquele seu jeito malicioso e desafiador.
Incapaz de sustentar aquele olhar, Natasha engoliu em seco e procurou uma rota de fuga, mas no conseguiu encontrar nenhuma brecha entre os pares que rodopiavam ao seu redor. Alm disso, no queria que Hugh chegasse a uma concluso errada como a de que ela no sabia danar ao som daquela nova msica.
Obrigou-se, ento, a soltar o corpo, a balanar os quadris e chacoalhar os ombros, ciente de que o tecido acetinado estava se amoldando a todas as curvas que os movimentos provocavam.
Hugh parecia fascinado. Estaria realmente atrado por ela? O modo como roava suas pernas s dela seria proposital?
Natasha estremeceu vrias vezes como se uma descarga eltrica atingisse seu corpo. Sabia que era perigoso brincar com fogo, mas, de repente, no estava conseguindo se controlar.
O ritmo seguiu em um crescendo at que os pares comearam a parar, sem flego. Naquele momento, a banda voltou a tocar uma msica lenta e romntica e Natasha no se lembrou de resistir, muito menos de cobrar a promessa que Hugh lhe fizera de pararem ao trmino da primeira msica.
Estavam danando to juntos que ela sentiu a respirao dele em seus cabelos.
Seria fcil demais fechar os olhos e se deixar arrastar para um mundo onde os sonhos e fantasias podiam se tornar realidade. E foi isso que aconteceu quando Hugh a fez erguer o rosto para ele e se inclinou para se apoderar de seus lbios.
Hugh a acariciava com a ponta da lngua de uma forma to arrebatadora que ela no pde evitar de entreabrir os lbios e lhe oferecer a intimidade de sua boca. As mos poderosas haviam percorrido suas costas e pararam nos quadris de forma que ele a manteve cativa durante todo o tempo.
Seus corpos se moviam eroticamente ao ritmo da msica. Incapaz de raciocinar, ela o beijava com a mesma intensidade com que era beijada. Sentia seu corpo se derreter junto ao de Hugh, como se fosse parte dele. O mundo havia deixado de existir. Nada tinha significado a no ser a magia daquele momento. Todo o resto foi esquecido: restaurante, garons, outros casais... Era como se apenas eles dois existissem e estivessem fazendo amor...
Natasha perdeu a noo do tempo nos braos de Hugh. Era como se ela sempre tivesse pertencido a Hugh da mesma forma que a lua, em sua cascata prateada, pertencia ao mar.
Um gemido dbil brotou de sua garganta quando Hugh finalmente se afastou, fazendo-a estremecer de frio ao lhe deixar o corpo desprotegido de seu abrao.
Fitou-o como se ainda estivesse flutuando, sem entender o que o levara a se separar dela. S ento deu-se conta de que a msica havia terminado, de que os msicos estavam guardando seus instrumentos e de que os garons estavam arrumando as ltimas mesas.
Um forte rubor cobriu as faces de Natasha quando o cantor se dirigiu a eles para se despedir. Sem saber o que fazer, Natasha baixou os olhos e deu-se conta de outro detalhe que a deixou ainda mais envergonhada. Vrias mechas de seus cabelos haviam se soltado do coque. Em um gesto automtico, tentou prend-los, mas Hugh a deteve.
	Desfaa o penteado. Deixe-os soltos.
Natasha obedeceu sem retrucar. Hugh estava certo. Tentar arrum-los seria perda de tempo. O resultado seria horrvel.
	Assim est melhor  disse quando ela terminou de tirar os grampos.
Natasha tentou se mostrar sria, mas no conseguiu. Como poderia depois de ter danado com Hugh como se estivessem fazendo amor? Como poderia recorrer  imagem de frieza de que costumava se revestir, quando o beijara como nunca beijara outro homem?
	Acho melhor sairmos  Natasha murmurou.  Eles esto querendo fechar o restaurante.
Hugh concordou com um gesto de cabea.
	A noite est linda  ele disse e olhou para as estrelas.  Vamos caminhando at o cassino ou prefere que eu chame um txi?
	Prefiro caminhar. Assim teremos chance de conversar.
A noite estava clara e iluminava as ruas. De outra forma, o risco de tropearem ou de pisarem em um buraco seria grande. O calamento era antigo na ilha. Pedras e paraleleppedos apenas. Depois de percorrerem a baa de St. Paul, eles teriam de subir a colina onde ficava o cassino.
Caminharam em silncio por algum tempo at que Natasha no pde se conter:
	Voc ainda no cumpriu sua parte.
	Est bem. Eu vou lhe contar  Hugh respondeu.  No vero passado, meu sobrinho, o filho de minha irm, decidiu passar as frias da faculdade com um amigo nos Estados Unidos. Margaret deu seu consentimento. Disse que o filho merecia porque era ajuizado e nunca lhe dera trabalho.
Natasha fez sinal de que estava ouvindo e Hugh prosseguiu.
	Eles ficaram alguns dias na casa dos pais do amigo em New York e resolveram visitar algumas cidades antes de voltarem para a Inglaterra e para as aulas. Miami foi o ltimo lugar em que estiveram.  Hugh fez uma pausa e Natasha percebeu que algo de errado havia acontecido.
 Os garotos tinham apenas vinte anos  Hugh murmurou, amargo.  Uma noite, eles foram a um clube para tomarem um drinque e jogarem sinuca. Conheceram um sujeito e beberam e jogaram com ele. Depois de ganharem algumas partidas e perderem outras, o homem sugeriu que fossem para outro lugar onde havia mesas de carteado. Os garotos jogaram vinte-e-um e ganharam duzentos dlares cada.
	J sei. Eles voltaram a jogar na noite seguinte e tornaram a ganhar.
	Exatamente. Os dois tiveram uma sorte notvel  Hugh ironizou.  Por quatro noites seguidas. A, incentivados pelo novo amigo, resolveram arriscar em uma mesa de pquer e adivinhe se puder...
	Eles tornaram a ganhar.
Hugh fez que sim com a cabea.
	A essa altura, o amigo de Peter decidiu voltar para casa, mas Peter ficou e a mar de sorte acabou. Mas, mesmo sem dinheiro, o tal amigo insistiu que ele continuasse por l. E ele tornou a ganhar por mais duas noites.
Natasha conhecia a ttica. Deixar ganhar. Quando a pessoa perdia e desanimava, faziam com que tornasse a ganhar. Dessa forma, a pessoa passava a acreditar que era fcil recuperar o prejuzo e ainda mais fcil conseguir uma pequena fortuna.
	Convencido pelo sujeito de que havia nascido para o pquer, Peter concordou em participar de um jogo alto.
	Quanto ele perdeu?  Natasha perguntou com a inflexo de voz de quem no tinha dvidas sobre o inevitvel desfecho.
	Cerca de cem mil dlares, uma importncia que ele no possua. Forado pelo clube, Peter ligou para casa e pediu que a me cobrisse sua dvida. Ela me contou o acontecido e eu mandei o dinheiro, apesar da decepo que meu sobrinho me causou. Mas pior do que isso foi o fato de ele no voltar para casa. Ficamos sem notcias de Peter durante quatro meses. A ligao que recebemos foi ainda pior. Ele havia sido preso no Novo Mxico ao tentar roubar um posto de gasolina.
Natasha respirou fundo.
	Fazia trs dias que Peter no se alimentava. No foi dinheiro que ele quis roubar, mas duas barras de chocolate e uma lata de cerveja.
	Pobre garoto. Lester fez um bom trabalho com ele, no ?
Hugh estreitou os olhos.
	Voc no parece surpresa.
	No estou  Natasha admitiu.   o tipo de comportamento que espero dele. Mas voc disse que eu estava envolvida no caso.
	No diretamente, mas o cassino  Hugh explicou.  Eu fui a Miami para me informar sobre o acontecido e um policial me ajudou. Ele me contou sobre suas suspeitas quanto a algum, provavelmente Lester, estar envolvido em um esquema de lavagem de dinheiro para algum contraventor.
	O nome dele  Tony. Tony de Santo.
Hugh encarou-a.
	Esse nome foi mencionado.
	Ele  amigo de Lester  Natasha declarou.  Mas o que isso tem a ver com o problema de seu sobrinho?
	No tenho plena certeza, mas parece-me que algum capaz de se empenhar em lavar dinheiro, no teria escrpulos para conseguir alguns dlares a mais em sua conta bancria. E se Lester no consegue se afastar de uma mesa de jogo, no lhe parece provvel que ele lance mo do dinheiro que tem a mo para depois cobri-lo de uma maneira ou de outra?
Natasha franziu o cenho.
	Ele no  um bom jogador. Perde muito mais do que ganha.
	Tomar dinheiro de garotos  certamente uma das maneiras que encontrou para cobrir seus rombos com o tal Tony de Santo  Hugh concluiu.
Natasha concordou com a deduo. Soava plausvel. Encaixava perfeitamente com o que sabia sobre seu padrasto e com suas extravagncias dos ltimos tempos, intercaladas com perodos de mau humor e terrvel ansiedade.
Mas o que acabava de saber no significava que poderia confiar em Hugh Garratt, Natasha falou consigo mesma.
	Voc deve gostar de seu sobrinho.
	Eu gosto. Meu cunhado morreu quando ele tinha apenas seis anos. Ajudei minha irm a cri-lo. Peter  um bom garoto.
Por mais sincero que Hugh lhe parecesse, Natasha queria ter certeza de que ele no cairia em contradio.
	Poderia ter sido voc a perder aquele meio milho de dlares. Ou lorde Neville lhe deu cobertura?
O olhar que Hugh lhe devolveu foi de franca indignao.
	Lgico que no. Ele apenas me ajudou a entrar no jogo. Contou-me,  claro, sobre o estilo de Lester jogar para que eu pudesse bolar uma estratgia. Mas o que garantiu minha revanche foi a sorte nas cartas. Se elas no fossem to boas, o acerto teria de ser adiado.
Poderia acreditar? A verdade era que ela queria acreditar na honestidade de Hugh e em suas boas intenes. Acima de tudo, queria acreditar que ele estava realmente interessado nela e no em us-la para atingir seus fins.
	O que pretende fazer agora?  Natasha prosseguiu.  De posse do dinheiro que seu sobrinho perdeu para Lester, est voltando para a Inglaterra?
	No ainda.  Hugh introduziu as mos nos bolsos, pensativo.  Prometi ao detetive de Miami que o ajudaria a desvendar o caso.
	De que forma?
	Conseguindo informaes e evidncias sobre transaes ilegais que eles estejam fazendo. Extratos bancrios, por exemplo, ou cartas ou relatrios. Qualquer coisa. Voc tem ideia de onde Lester guarda seus papis? No cofre do cassino, talvez?
	No creio. Ao menos nunca encontrei nada de suspeito. Mas Lester costuma mexer muito no cofre do apartamento onde moramos.  de seu uso exclusivo. Infelizmente no conheo o segredo.
Eles estavam se aproximando do cassino e j percorriam seus jardins quando Hugh parou e passou uma das mos pelos cabelos em um gesto nervoso.
	Preciso ter acesso a esse cofre. No deveria lhe pedir isso, mas s voc pode me ajudar.
Natasha observou-o em silncio. O que Hugh estava dizendo fazia sentido. Mas seu medo de confiar nele e de sofrer uma desiluso a impedia de decidir.
Seria mais seguro se afastar tanto de Lester quanto de Hugh. Ambos, afinal, eram experts em tramas. Mas a atra-o que sentia por Hugh era mais forte do que ela.
	Est bem. Eu facilitarei sua entrada no apartamento. Mas como pretende abrir aquele cofre?
Hugh sorriu e enlaou-a pela cintura.
	Deixe isso comigo  ele murmurou.  Mas tenha cuidado. Lester poder prejudic-la se souber que est me ajudando.
Natasha sorriu.
	No se preocupe. Sei lidar com Lester.
O beijo que Hugh lhe deu foi como uma descarga eltrica. Seu corao acelerou e o sangue aqueceu nas veias. As mos deslizaram para os quadris de forma que ele pudesse pressionar seu corpo contra o dele. Ocorreu a Natasha que bastaria empurr-lo para que ele a soltasse. Mas ela no queria ser solta. Uma fora maior a impedia de se mover.
Ao sentir que ela se rendia, Hugh aprofundou o beijo e tornou-se mais e mais exigente. Natasha lembrou-se dos conselhos de sua av sobre nunca se apaixonar por um jogador, mas Hugh Garratt no era um jogador...
O bom senso, porm, acabou vencendo e ela conseguiu dominar sua fraqueza e afast-lo.
	 melhor nos concentrarmos no que precisa ser feito  disse com esforo.  D a volta e entre pela porta dos fundos.
	No acha que seria mais seguro se esperssemos at Lester se recolher?
	Ainda faltam mais de duas horas para isso  Natasha avisou.  E mais uma at que ele pegue no sono.
	Tem certeza de que ser melhor assim?
	Tenho. Fique calmo. Como j disse, no tenho medo de Lester.
No apartamento, Natasha se colocou diante do espelho e se perdeu em divagaes.
Quem era Hugh Garratt realmente? At aquele momento, testemunhara sua atuao em trs papis diferentes: a de falso ingnup, a de jogador experiente e a de tio amoroso. Para no mencionar o de sedutor irresistvel. Quem seria o Hugh verdadeiro?
Livrou-se das sandlias e guardou-as na prateleira inferior de seu guarda-roupa. Em seguida, tirou o vestido e ficou apenas de calcinha.
Seu reflexo mostrava um corpo esguio. Ela sempre cuidara de suas formas e de sua sade, alimentando-se bem e nadando todos os dias. Mas nunca se preocupara em se mostrar atraente para um homem. Agora estava examinando os seios firmes e cheios, alvos em comparao com o bronzeado das outras partes, as pernas longas, os quadris arredondados e a cintura fina.
Um suspiro de impacincia escapou de seus lbios. Pensamentos daquela ordem no lhe trariam nada exceto problemas. Hugh no havia insistido em seu pedido de casamento. Depois de ter conseguido que ela o levasse at o cofre onde poderia estar a prova que procurava contra Lester, provavelmente no precisaria mais recorrer a uma medida to extrema. Por outro lado, ela poderia ganhar muito, se conseguisse assumir o controle absoluto de sua herana e se livrar para sempre de seu padrasto.
Um casamento de convenincia, contudo, iria contra todos seus princpios. Atrao sexual no era base suficiente para um casamento. Alm disso, as perguntas que Hugh lhe fizera sobre Spaniard's Cove sugeriam mais do que uma simples curiosidade. O cassino deveria estar valendo uma fortuna com a abertura do aeroporto e o aumento significativo do turismo a cada ano.
Um arrepio a fez estremecer. Se ela estava raciocinando certo, Hugh Garratt era ainda mais perigoso que seu padrasto. Ao menos com Lester ela sabia lidar. Enquanto Hugh minava suas defesas.
A nica medida sensata a tomar era no assumir riscos. Devia quebrar sua palavra e impedir o acesso de Hugh ao apartamento. Isso o ensinaria a no se aproveitar de seu poder de seduo.
Por outro lado, se ela se negasse a lhe abrir a porta do apartamento, Hugh poderia pensar que ela estava com medo de no resistir a seus beijos. Isso no podia acontecer.
Eles, afinal, estavam juntos contra Lester. Seus interesses coincidiam. No era mentira. Se Hugh encontrasse provas que incriminassem seu padrasto, ela poderia se livrar dele sem casar com ningum e sem ter de esperar dois longos anos.
Um sorriso curvou os lbios de Natasha. Se Hugh a estava usando, por que no podia se aproveitar dele tambm?
Sua deciso estava tomada. Ela permitiria a entrada de Hugh no apartamento, mas deixaria claro que sua participao se limitava  estratgia. para ambos se livrarem de Lester. S isso. No haveria mais beijos entre eles. Nem carcias.
Dobrou cuidadosamente o vestido e colocou-o no encosto da cadeira, certa de que o usara pela primeira e ltima vez. Vestiu em seguida uma cala jeans e uma camiseta preta e prendeu os cabelos em um rabo-de-cavalo.
Preparou-se para esperar, munida de um livro. Precisava de distrao para seus pensamentos. No podia se permitir fantasias romnticas. Era preciso colocar os ps no cho antes que fosse tarde demais.
Duas horas depois, ouviu passos no quarto de Lester e um barulho que a fez pensar em uma trombada contra algum mvel. Lester deveria ter bebido alm da conta. Se assim fosse, ele dormiria um sono pesado, o que facilitaria o trabalho de Hugh.
Foi um alvio saber que ele estava sozinho. A ideia de Debbie acompanh-lo a preocupara.
Contou trinta minutos depois que ouviu Lester se deitar e s ento se dirigiu, p ante p,  porta de seu quarto.
Os roncos que ouviu a fizeram suspirar de alvio. Assim mesmo, continuou andando com cuidado para no fazer nenhum rudo.
Desceu pela escada dos fundos e encontrou a cozinha vazia como esperava. Seguiu para a sala do chefe apanhou a chave. Assim que abriu a porta, chamou baixinho por Hugh.
Ele saiu das sombras e entrou rapidamente.
	Est tudo bem?
	Tudo  ela garantiu, excitada.  Ele est dormindo e roncando. Com certeza bebeu bastante.
Hugh sorriu e abraou-a pela cintura, certo de que seria correspondido. Mas quando se inclinou para beij-la, Na-tasha virou o rosto para o outro lado.
	Precisamos ser rpidos.
Natasha notou a expresso surpresa de Hugh por causa de sua reao, mas fingiu que no havia percebido. Trancou a porta, guardou a chave no bolso da cala e conduziu-o atravs da cozinha. Espiou por uma fresta da porta antes de sarem para o hall e se afastou ao som de passos que se aproximavam. Fez um sinal para que Hugh se escondesse atrs da porta e abriu-a no instante exato que um dos funcionrios do bar colocou a mo no trinco.
	Oh, desculpe, srta. Natasha  ele disse com ar de susto.  No esperava encontr-la aqui a esta hora.
	Boa noite, John. Eu vim tomar um copo d'gua. Algum cliente insone pediu algo para comer?
	Sim.  O funcionrio se dirigiu  mesa onde o cozinheiro costumava deixar alguns sanduches frios para casos como aquele.
	Obrigado, srta. Natasha  John agradeceu por ela ter segurado a porta para ele.
Ela sorriu e acompanhou-o at que desaparecesse em direo ao salo de jogos. Voltou, ento, rapidamente, para a cozinha.
Pode sair. O caminho est livre  murmurou.
Ele a seguiu por dois lances de escada. Para um homem de seu tamanho, era gil e silencioso. Um ladro profissional no teria sido mais eficiente, Natasha pensou.
	Mais um detalhe apenas  Natasha declarou antes de abrir a porta do apartamento.  No est pensando em tirar alguma coisa do cofre, est?
Hugh negou com um movimento de cabea.
	Em primeiro lugar, no quero alert-lo antes de ter uma prova concreta contra ele. Mas tambm no quero remover nada que possa servir de evidncia. Se encontrar algo interessante, farei uma anotao.  Hugh hesitou.  No est arrependida, est?
	Lgico que no  Natasha respondeu.  Eu quero me livrar de Lester tanto quanto voc. Terei prazer em ajud-lo no que for preciso.
O modo formal como ela respondeu o fez sorrir com ironia.
	Confie em mim  Hugh murmurou e prendeu-a pelo pulso antes que ela pudesse escapar. E antes que Natasha pudesse se afastar, ele se inclinou e beijou-a.
Natasha no se deixou arrastar pela emoo dessa vez.
	Vou verificar se Lester continua dormindo.
O ronco continuava to alto quanto antes. Assim mesmo ela permaneceu alguns instantes com o ouvido colado  porta. Ou teria sido uma mera desculpa at que recuperasse seu autocontrole?
De nada adiantava falar consigo mesma que no devia confiar em Hugh Garratt. Bastava estar perto dele, para perder a noo de tempo e de espao. Mais ainda, a razo.
Era preciso se consolar com a ideia de que ele voltaria para a Inglaterra assim que aquele assunto terminasse. Ento no tornaria a v-lo e no correria mais perigo.
Seu rosto parecia uma mscara quando se obrigou a voltar e a abrir a porta do apartamento para que Hugh entrasse.
	O cofre fica aqui.  Ela puxou a falsa prateleira de livros.  Como pretende abri-lo?
	Da mesma forma que venci Lester no jogo.  Hugh tirou uma lanterna tipo caneta do bolso e iluminou o cofre. Natasha notou, naquele momento, que ele estava usando luvas como as usadas pelos cirurgies.  Investigando  Hugh explicou.  Qual  a data de nascimento dele? Natasha pestanejou.
	Dez de junho.
Hugh comeou a girar o boto.
	Um, zero, seis... E o ano?
Ela mencionou-o e Hugh tornou a girar o boto, mas nada aconteceu.
	Ok. Agora vamos tentar o nmero do telefone.
Com pacincia, Hugh tentou os cinco primeiros algarismos e depois os ltimos, nas nenhum dos dois provou ser a combinao correta.
	Em que data ele casou com sua me?
	Dia vinte e um de setembro  Natasha disse com um sorriso.  Mas eu duvido que ele se lembre.
	No custa tentar.
No funcionou.
Naqueles momentos de tenso, Natasha no conseguiu pensar em mais nada a no ser em fazer sugestes e aguardar com ansiedade que a combinao fosse descoberta. Eles tentaram cerca de uma dzia de sries de nmeros que poderiam significar algo importante para Lester, mas nenhuma delas era a certa.
	Parece que me enganei sobre Lester ser do tipo previsvel. Talvez no o seja em todos os sentidos.
Natasha estava inclinada a concordar com aquela opinio. De repente, porm, Hugh respirou fundo.
	Tente seis, um e zero.
	De que se trata?
	A data de nascimento dele segundo o modo americano. Eles costumam mencionar o ms antes do dia.
Hugh girou o boto e tentou abrir o cofre. E dessa vez a porta abriu com facilidade.
	Cus! Voc estava certo!  Natasha exclamou, perplexa e contente ao mesmo tempo.  Como Lester pode ser to bvio?
	Sorte nossa que ele seja  Hugh respondeu.  Agora vamos verificar se nosso esforo valeu a pena.
Natasha ajoelhou-se ao lado de Hugh e olhou para dentro do cofre. Para seu desapontamento, no havia nada alm dos papis que ela vira Lester conferir. Hugh examinou-os. Eram contas e recibos. Nada que chamasse a ateno. A no ser uma pasta de couro que Lester havia colocado na prateleira superior. E que estava vazia.
	No  estranho algum guardar uma pasta vazia trancada em um cofre?  Hugh perguntou com o cenho franzido.
	 a pasta que ele leva consigo quando viaja para Miami Natasha explicou.
A informao fez com que Hugh tornasse a examin-la em busca de um fundo falso ou algo do gnero. E aps tatear vrias vezes, Hugh teve seu esforo recompensado.
	O que significa isso? Contrabando?  Natasha quis saber.
	No acredito que ele transporte drogas. Seria arriscado demais  disse Hugh.  Veja! Um estojo de veludo!
Natasha arregalou os olhos.
	As pessoas usam esse tipo de estojo para guardar jias. Acha que  dessa forma que Lester est lavando o dinheiro de Tony? Comprando diamantes?
	Voc pode estar certa  Hugh concordou.  Diamantes so o investimento ideal para quem no quer responder perguntas. So altamente negociveis e fceis de transportar. Mas, para nosso azar, isso no constitui uma evidncia.
	Hugh sentou no cho e respirou fundo.  Precisamos de algo que o ligue ao pessoal de Miami como um registro de operaes financeiras, um caderno com nomes...
	No h nada disso aqui.
	No, no h. Podemos devolver tudo ao cofre e tranc-lo outra vez.
Natasha comeou a guardar os papis, mas Hugh a deteve.
	Tenha cuidado. No queremos que ele perceba que algum mexeu em seus papis.
	Ele no perceberia.
	No o subestime  Hugh censurou-a.  Lester pode se tornar perigoso.
Natasha quase riu.
	Perigoso? Lester? No seja bobo. Ele late mas no morde. Se o faz sentir melhor, posso ir at o quarto dele e me certificar de que continua dormindo.
	Faa isso.
Natasha tornou a encostar o ouvido  porta. Os roncos continuavam, embora em volume mais baixo. Lester no era perigoso. Perigoso era Hugh Garratt. Ela no podia se esquecer disso nem sequer por um segundo.

CAPITULO VI

A escurido na sala de estar era total quando Natasha abriu a porta.
	Hugh?  sussurrou.
	Estou atrs de voc  ele respondeu baixinho.
	E melhor ns sairmos daqui. Eu lhe mostrarei o caminho.
No dava para v-lo, mas podia ouvir sua respirao e sentir o perfume msculo de sua pele. Caminhavam devagar pelo corredor escuro e precisavam se orientar pelas paredes. Foi um alvio alcanar a porta da frente e escapar  sensao claustrofbica.
Agora havia uma penumbra ao menos e puderam andar mais depressa. Desceram as escadas e atravessaram a cozinha. Foi preciso parar, contudo, diante da porta dos fundos para que Natasha tirasse a chave do bolso e a introduzisse na fechadura.
O ar fresco da noite foi um blsamo.
	O que acontecer depois disso?  Natasha indagou  despedida.
	Confesso que no sei.  Hugh encolheu os ombros.
 Creio que fui otimista demais ao pensar que conseguiria encontrar algo que pudesse incriminar Lester. Parece que no nos resta muito a fazer.
Ou seja, Hugh iria embora.
Natasha disse a si mesma que essa seria a melhor soluo. O quanto antes ele partisse, mais segura ela estaria. Estendeu a mo em uma despedida formal.
Bem, eu apreciaria se me mantivesse informada caso surja alguma novidade.
Hugh olhou demoradamente para a mo de Natasha e uma expresso divertida percorreu seu semblante. Antes que Natasha pudesse antecipar o que estava por acontecer, ele a prendeu contra a parede, apoiando as duas mos, uma de cada lado de seus ombros.
	O que houve, Natasha, para voc me colocar na geladeira de um minuto para outro?  Hugh perguntou. Estava to perto que seus lbios quase encostaram nos dela enquanto a questionava.
Natasha precisou fazer um grande esforo para conseguir mover as mandbulas.
	Na geladeira?
	Voc entendeu.  Ele segurou uma mecha dos cabelos e enrolou-a em seu dedo.  Voc  a mesma mulher com quem dancei h pouco mais de duas horas? Ou possui uma irm gmea idntica?
A arrogncia de Hugh irritou-a. O que ele estava pensando? Que nenhuma mulher resistia a seu charme?
	Voc teve a impresso errada  Natasha respondeu com desdm.  O nico motivo que me levou a aceitar seu convite para jantar foi descobrir o que o trouxe aqui.
	Ah, e aqueles beijos? Foram fruto de minha imaginao?
Um encolher de ombros foi a tentativa de Natasha de parecer despreocupada.
	Eu estava interessada, confesso, mas em saber se voc poderia me ser til no que dizia respeito a Lester. No nego que a noite foi agradvel.
	Obrigado pela parte que me toca.
	Mas o que tnhamos em comum j foi discutido e no resta mais nada a ser dito. Portanto, boa sorte, sr. Garratt, com suas investigaes. E adeus.
Foi uma tima interpretao, mas em vez de palmas arrancou riso de Hugh.
	Eu realmente no gosto quando prende os cabelos.
Voc fica muito mais bonita com eles soltos.
Ele estava olhando daquele jeito outra vez. Que atrevimento! Ela no tinha a menor inteno de desfazer o rabo-de-cavalo. Muito menos de deix-lo beij-la. Mas ele a hipnotizou com aqueles olhos cinzentos e ela perdeu o controle sobre sua vontade.
As mos comearam a subir em direo ao pescoo e antes que ela pudesse reagir, o elstico foi retirado. Algo de que no havia se lembrado em tempo era que estava sem suti sob a camiseta. Com o movimento, os seios tambm se moveram e atraram o olhar ardente de Hugh.
Os mamilos enrijeceram no mesmo instante e seus contornos ficaram delineados sob o tecido, traindo seu desejo. A pulsao tornou-se to rpida que uma tontura a impediu de permanecer de p. Foi preciso apoiar as costas contra a parede e se submeter com valentia ao exame que ele realizou em cada curva de seu corpo.
Hugh a desejava. Aquilo no era apenas um jogo de interesses. Hugh a queria mesmo que fosse por alguns instantes.
Ele lhe endereou o mais sensual dos sorrisos quando a viu engolir em seco e umedecer os lbios com a ponta da lngua.
 Assim est melhor. Voc pode enganar os outros com seu papel de frgida mas no me convenceu nunca. Voc  toda mulher.
A necessidade de respirar fundo fez os seios se projetarem ainda mais e o mero roar do tecido nos mamilos lhe provocou um arrepio.
Com o dorso da mo, Hugh afastou as mechas de cabelos que haviam cado em seu rosto e traou o contorno de cada uma das orelhas. Depois, sem afastar os olhos dos dela nem sequer por um segundo, seus dedos percorreram toda a extenso do pescoo e dos ombros e foram descendo com inconfundvel inteno.
Uma parte da mente de Natasha estava registrando o comportamento de Hugh com irritao. E lhe ordenava para empurr-lo e defender sua dignidade, mas quando aquelas mos se apoderaram dos seios e os massagearam, ela no conseguiu fazer outra coisa exceto gemer e fechar os olhos.
Hugh baixou a cabea e comeou a morder sensualmente seu pescoo, apertando-o de leve com os dentes, para em seguida beij-lo e acarici-lo com a lngua.
A sensao era de febre. O sangue corria quente pelas veias e os ossos pareciam estar se derretendo. No momento que Hugh a tomou em seus braos fortes e reclamou sua boca, ela se amoldou ao corpo tenso de desejo e estremeceu ao sentir a enorme potncia.
Os lbios de Hugh eram exigentes. Eles a fizeram receb-lo com facilidade e percia em um beijo como ela nunca provara antes.
A capacidade de raciocinar a abandonou por completo. Sabia que o fogo que Hugh ateara em seu corpo s poderia ser extinguido quando ele a fizesse se render a sua masculinidade.
Ocorreu a Natasha que ela estava se apaixonando irremediavelmente por Hugh e que no havia nada que pudesse fazer contra isso.
Ele estava acariciando-a sob a camiseta, explorando os seios e fazendo com que ela sentisse necessidade de arfar de tanta excitao.
Quando Natasha pensou que no estava mais suportando a tortura das carcias, Hugh comeou a massagear sua feminilidade com a coxa.
	Eu quero voc  Hugh murmurou, rouco.  Quero fazer amor com voc de todas as maneiras que existem. Quero-a nua em meus braos para beij-la inteira.
A cena que ele descreveu foi to real que Natasha chegou a sentir o peso de Hugh sobre ela e suas pernas se prepararem para receb-lo.
	Mas este no  o lugar que imaginei para nossa primeira vez  Hugh continuou. Venha comigo. Vamos para meu chal na praia. A cama  grande e confortvel. Poderemos ter uma noite longa e sentirmos muito prazer nos braos um do outro.
Uma noite... Apenas uma noite...
A realidade a atingiu como o golpe de uma espada. Estava louca? Quantas vezes sua conscincia a alertara sobre Hugh no ter escrpulos? Sobre ele ser capaz de se aproveitar da atrao fsica que os unia para lev-la a um casamento que o faria dono de parte de sua herana?
Natasha reuniu as poucas foras que lhe restavam para empurr-lo e rir com escrnio para sufocar a amarga humilhao.
	 srio que esperava que eu fosse para a cama com voc? Em troca de um jantar? Alguns beijinhos, tudo bem, mas voc est querendo demais.
Os olhos de Hugh escureceram.
	O que  preciso, srta. Cole, para algum derrubar suas reservas? H algum problema com voc? Como pode prometer prazeres e recuar em seguida?
Natasha poderia fulmin-lo tal a raiva que brilhou em seu olhar. Sem dizer nada, virou as costas e comeou a se afastar. Mas Hugh a segurou pelo brao e a obrigou a encar-lo.
	Foi por pouco desta vez, no foi? No adianta mentir. Eu no estou equivocado. Seu corpo correspondeu ao meu toque. Sua mensagem foi alta e clara. Se em vez de querer lev-la para o chal, eu a tivesse deitado naquela mesa, agora estaramos entregues ao prazer que os homens e as mulheres partilham desde o incio dos tempos.
As palavras foram escolhidas deliberadamente para excit-la. Sem que pudesse evitar, os olhos de Natasha procuraram a mesa a que Hugh se referira e ela chegou a sentir as costas pressionadas contra a superfcie dura e fria, os olhos voluptuosos em seus seios e a dor da posse.
Um intenso rubor cobriu as faces de Natasha. Por um instante, ela no conseguiu reagir. Mas finalmente o encarou.
	No sou da mesma opinio. Voc  ardente, mas no  o nico homem que sabe beijar bem. E o fato de eu saber retribuir beijos no significa que v para a cama com quem me beija.
	Ah, ento voc sente prazer em provocar? Por qu? E algum tipo de jogo de poder? Gosta de saber at que ponto consegue dominar um homem?
Natasha no respondeu. Se era isso que Hugh estava pensando, ela estava salva. Hugh no podia saber a verdade. Se ele descobrisse sobre sua paixo, estaria perdida. 
Pense o que quiser.  Natasha abriu a porta com mpeto.  Tenha uma boa noite, sr. Garratt.
Hugh hesitou como se estivesse tentando encontrar uma forma definitiva de venc-la. Natasha imaginou-se sendo agarrada por Hugh contra sua vontade. No exatamente contra sua vontade...
Antes, porm, que o pensamento excitante a dominasse, ele se afastou desejando-lhe bons sonhos.
Bons sonhos? Ela nunca teve uma noite pior em sua vida. Quando o cansao finalmente a vencia, o mesmo sonho a atormentava. Ela estava correndo em meio  neblina e tentava se agarrar a algo que se distanciava cada vez mais de suas mos. Tropeou vrias vezes e chorou muito. Por trs vezes, acordou em lgrimas.
A necessidade de receber dois fiscais na manh seguinte e lhes apresentar os livros contbeis referentes aos ltimos trs meses no colaborou para levantar seu nimo.
Cansada e sem energia, Natasha decidiu fazer uma caminhada aps o almoo.
Os jardins estavam deslumbrantes. O gramado verde-esme-ralda estava vioso e os canteiros repletos de flores das mais variadas cores. Caminhando a esmo, Natasha no se deu conta de onde estava indo, at se ver diante dos chals na praia.
Hugh estava hospedado em um deles. Se ainda no tivesse voltado para a Inglaterra, ela poderia encontr-lo e fingir casualidade.
Embora j estivesse preparada para isso, Natasha levou um choque ao ver a porta do chal totalmente aberta e uma arrumadeira providenciando a troca dos lenis.
Sem pensar, Natasha apoiou-se no trinco da porta.
	Boa tarde, srta. Natashaa arrumadeira sorriu, tmida.
	Boa tarde, Sandie. A que horas o sr. Garratt fechou sua conta?
	Bem cedo, srta. Natasha. Ele foi muito generoso. So poucos os hspedes que se lembram de ns. Queria falar com ele?
	No  Natasha se apressou a responder ao notar o olhar de curiosidade da jovem.  Algum me perguntou se havia algum chal vago. Obrigada, Sandie.
	De nada, srta. Natasha.
Natasha tentou sorrir profissionalmente como sempre fazia, mas os msculos de suas faces pareciam ter congelado. Continuou a caminhada  sombra das rvores e foi subindo as encostas vulcnicas. A trilha no era fcil. Alm disso fazia calor e os insetos estavam em polvorosa, mas a vista valia a pena e ela no desistiu.
Vinte minutos depois, estava no alto de uma colina e via a ilha inteira a seus ps como um tapete verde estendido no meio do crculo azul do mar. Daquele ponto, o cassino parecia uma baleia. Mais alm, ela podia ver a baa de St. Paul com seu velho cais que servia de ancoradouro, agora, para luxuosos iates. Mais longe ainda, estava o novo aeroporto.
Um brilho prateado a fez saber que um avio estava de-colando. Um 747. Talvez estivesse seguindo para a Inglaterra. Hugh poderia estar entre os passageiros. Rezou mentalmente para que ele tivesse uma boa viagem e s conseguiu se obrigar a voltar ao cassino depois que o avio desapareceu de vista.
Hugh havia partido. A despedida fora terrvel, mas Natasha no podia permitir que ele a magoasse. No queria chorar. No choraria.
Sem que ela percebesse, uma nuvem escura surgiu no cu e comeou a chover. Em poucos instantes, sua roupa ficou encharcada, mas ela no deu importncia a isso. O calor era to grande que as gotas evaporavam ao carem sobre as pedras. Ela sabia que estaria seca antes de chegar em casa.
O cu parecia estar chorando com sua dor. Incapaz de continuar se reprimindo, Natasha ergueu os olhos para o alto e deixou as lgrimas se misturarem  chuva.
A chuva parou aps quinze minutos to abruptamente quanto comeara. Um profundo silncio se seguiu. Nuvens de vapor subiam em direo ao sol cujos raios transformavam as folhas das rvores em ouro. Do outro lado, sobre a baa, um lindo arco-ris havia se formado.
Natasha respirou com prazer o doce perfume dos jasmins. A beleza do cenrio era um blsamo para seu corao ferido. Sentou-se ali por um longo tempo e se imaginou como sendo parte do sol e da brisa. Quando finalmente se sentiu mais calma, levantou-se e empreendeu o caminho de volta.
Era o perodo do dia em que o cassino se apresentava mais vazio. Muitas pessoas gostavam de dar um cochilo aps o almoo, quando o calor era mais intenso. Natasha viu Lester no bar, mas no parou. No queria falar com ele. Temia deixar escapar alguma palavra sobre seu conhecimento das ativida-des extracurriculares a que ele se lanara.
Desceu para a adega a fim de verificar o estoque. Era um trabalho normalmente feito pelo gerente do bar, mas ele estava de frias. Alm disso, a adega era o local mais fresco do estabelecimento.
No havia pressa. Verificou cuidadosamente as prateleiras e anotou a necessidade de comprarem mais caixas de champanhe e de vinho branco. O vinho da casa era um Chardonnay australiano de tima qualidade. Embora fosse consumido em menor escala, o Burgundy tambm era bastante solicitado.
Distrada com a conferncia, Natasha deu um pulo ao pressentir uma presena as suas costas.
	Lester! Voc me assustou.
	Desculpe-me  ele disse com voz pastosa, o que a surpreendeu. Lester gostava de beber, mas nunca to cedo.
 No quis interromper seu trabalho.
	Estou conferindo o estoque. Estamos com pouco vinho.
	No  de admirar  Hugh resmungou.  Mal as caixas chegam, so levadas pela porta dos fundos.
Natasha franziu o rosto.
	No est acusando Ricardo, est? Ele trabalha conosco h mais de dez anos.
	S estou dizendo que ele  o nico, alm de voc e eu, que tem uma cpia da chave da adega. Eu procurei um Chambertin da safra de 78 ontem  noite. Pelos meus clculos, deveria ter encontrado trs garrafas, mas no havia nenhuma.
		Ainda temos quatro  Natasha informou, aliviada. 	Acabei de v-las.
	Onde?  Lester quis saber com ar petulante.
	Embaixo. Na ltima prateleira.  Ela apontou o local. Veja voc mesmo.
Hugh no pareceu interessado.
	Divertiu-se ontem  noite?
Natasha olhou para o padrasto com desconfiana. Ele estava querendo sond-la. Precisava ter cuidado com o que dizia.
	Sim, obrigada.
	Deveria ser tarde da noite quando voltou para casa.
	Na verdade, cheguei antes de voc. Eu o ouvi entrar.
Ele moveu vrias vezes a cabea para cima e para baixo.
	Ento voc no estava dormindo?

	Voc me acordou  Natasha retrucou. Estava ficando nervosa com o interrogatrio. Mal conseguia respirar.
	Eu? Tem certeza de que no ficou acordada por outro motivo? Que outra pessoa no a deixou dormir?
	No sei de que voc est falando.
Ele riu de maneira desagradvel.
	No imaginava que o sujeito fosse partir depois de passar a noite com voc, no ? Finalmente algum conseguiu derreter seu gelo. Fico pensando o que ele tem que os outros no tm.
Natasha estava corada de vergonha e de indignao diante daquele ataque verbal. Mas antes que pudesse se afastar, Lester continuou:
	No que eu me importe com quem voc dorme ou deixa de dormir. Pode se deitar com um time inteiro, inclusive com os treinadores, se quiser. O que no admito  que se apaixone pelo primeiro que aparece e que a pede em casamento para se apoderar deste lugar. De jeito nenhum.
	Se eu decidir me casar, voc no poder me impedir 	Natasha protestou.  No preciso de sua permisso.
	 a que voc se engana  Lester declarou com um tom de voz que a fez estremecer e se lembrar do conselho de Hugh para que no subestimasse seu padrasto.
	Conheo os termos do testamento  Natasha argumentou.  Voc no pode impedir que eu me case sem ter uma boa razo para isso. De qualquer modo, no haver nada que possa fazer quando eu completar vinte e cinco anos.
	Sim. E ento? Pensa que pode dizer um simples "obrigada, Lester" e me despachar? Oh, no. Eu mereo mais do que isso, depois de tudo que fiz por este lugar. Eu o transformei em uma mina de ouro. Se no fosse por mim, voc no teria tanto dinheiro.
Natasha deu um passo para trs e percebeu, aterrorizada, que havia chegado ao fundo da adega onde havia um pequeno depsito que no era usado havia muito tempo. Agora havia um colcho no cho e um travesseiro.
O que viu nos olhos de Lester confirmou sua suspeita. Tentou escapar, mas ele antecipou seu movimento e a deteve. E com um forte empurro a levou para dentro da cela escura.
	Quero uma garantia de que no ficarei desamparado  Lester prosseguiu.  Agora. Trouxe alguns papis para voc assinar.  um contrato de compra e venda onde o comprador  um bom amigo meu. No ter prejuzo,  claro.
Receber um preo justo pelo cassino. Desde que assine imediatamente e no me cause problemas. Nesse caso, o preo comear a cair, dia a dia.
	No! Voc no pode me obrigar a isso!  Natasha protestou.
	Oh, sim, eu posso. Ningum saber onde encontr-la. Tenho condies de mant-la aqui pelo tempo que for necessrio. Trs semanas custam a passar quando no h o que fazer nem com o que se distrair. E o gerente do bar acabou de sair de frias.
Hugh deu uma gargalhada.
	Poder gritar quanto quiser que ningum a ouvir. E ningum perguntar por voc agora que ele partiu. Direi que recebeu um convite para passar alguns dias em casa de uma amiga de infncia e que a levei pessoalmente ao aeroporto.
Natasha empalideceu.
	Voc perdeu o juzo! No pode fazer isso comigo. Eu irei direto para a polcia assim que sair daqui.
	At esse dia, eu j estarei instalado, so e salvo, e rico, em algum pas da Amrica do Sul. E ningum se preocupar em investigar Tony. Como eu j lhe disse, ele tem amigos importantes.
	Tony de Santo. Eu deveria ter deduzido que ele estava por trs desta histria.  Natasha encarou o padrasto sem demonstrar o medo que estava sentindo.  Foi o dinheiro dele que voc perdeu para Hugh, no foi? Esto fazendo algum negcio escuso juntos e agora voc no tem como pag-lo?
	Voc acertou  Lester admitiu com ironia.  Mas isso no faz diferena. Tony no se importa com a origem do dinheiro. Basta que ele lhe seja devolvido. E ele est interessado neste cassino h tempos. Tanto que vir aqui comigo amanh para me ajudar a convenc-la a assinar os papis. Se  que isso ser necessrio. Depois de passar a noite trancada no escuro e sem comida, voc perder a pose.
Lester empurrou-a novamente ao dizer isso e ela caiu sentada no colcho.
	A propsito, no  apenas no cassino que Tony est interessado. Da ltima vez que esteve aqui, ele me disse que est interessado em voc.
A porta foi fechada com um estrondo. Ao ouvir a chave girar na fechadura, Natasha se encolheu.

CAPITULO VII

Natasha dobrou os joelhos e apoiou os braos cruzados sobre eles enquanto seus olhos tentavam se acostumar com a escurido. Lester estava louco ou apenas alcoolizado? Ele pensava realmente que poderia obrig-la a entregar sua herana ao abominvel Tony de Santo?
A imagem do homem lhe veio  mente e a fez franzir o cenho.
A que tipo de persuaso eles poderiam recorrer? O olhar de cobia que o crpula lhe dirigira poderia significar um problema srio. Lester estava certo quanto  segurana do esconderijo. Ningum a ouviria gritar .por socorro. Eles poderiam fazer com ela o que quisessem. E ningum questionaria sua ausncia. A clientela era de turistas na maior parte. Mesmo que algum desse por sua falta, a explicao de Lester seria perfeitamente plausvel. A nica pessoa que poderia suspeitar de seu sbito desaparecimento era Hugh, e ele havia deixado a ilha.
Um pequeno rudo a deixou alerta e arrepiada. E se houvesse ratos no poro? Deus, ela no tinha nem sequer uma vela!
No queria acreditar que Lester fosse capaz de deix-la trancada na escuro, mas ele a deixara. Deveria fazer poucos minutos que estava ali, mas pareciam horas. Tinha certeza de que a ideia no partira dele. Ela no sabia muito sobre Tony de Santo e sua gangue de Miami, mas o plano s poderia ter sido arquitetado por ele.
Subitamente, Natasha lembrou-se de seu tio Timothy e ficou ainda mais assustada. Ele estava velho e no gozava de boa sade. O que aqueles homens fariam com ele quando tentasse defend-la? Aqueles homens no tinham escrpulos. Assim que conseguissem a assinatura dela nos papis, eles o ameaariam para que fizesse o mesmo.
Natasha entendeu, naquele momento, que no podia as: sinar nada em nenhuma hiptese.
Em busca de uma posio mais cmoda, esticou as pernas e sentiu o p encostar em algo. Tateou para verificar o que era e encontrou uma garrafa e um copo. gua. Ao menos isso Lester no negara.
Uma sensao de sufocamento a invadiu. Estava entrando em pnico e isso s pioraria sua situao. Respirou fundo vrias vezes. Fechou os olhos e obrigou-se a pensar em algo que a distrasse. Quis lembrar-se de uma poesia, mas nenhuma lhe veio  memria. Em seu lugar, formou-se a imagem de Hugh e as cenas dos beijos que haviam trocado.
Balanou energicamente a cabea. Pensar em Hugh no iria ajud-la. A seu modo, ele tambm tentara colocar suas mos em Spaniard's Cove.
Consultou a hora em seu relgio de pulso cujo mostrador era luminoso e ficou perplexa ao descobrir que havia passado menos de trinta minutos desde que Lester a trancara. Deitou-se e procurou visualizar a paisagem que havia admirado pouco antes de cair na armadilha.
Voltaria a respirar o ar perfumado da noite? Sentiria outra vez a carcia morna da chuva tropical em seu rosto?
Pela milionsima vez, Natasha olhou para o relgio. Fazia quase seis horas que Lester a trancafiara e que ela no recebia nenhum tipo de alimento. Cochilou algumas vezes, mas sempre acordava assustada. A esperana de que Lester cairia em si e voltaria para solt-la estava se esvaindo.
Um som de passos do outro lado da porta a fez aguar os ouvidos. Eram passos leves, hesitantes. No era Lester, certamente. Com o corao aos saltos, ela correu para a porta e esmurrou-a.
 Socorro! Deixe-me sair!
	Oh, por favor, fale baixo...
	Debbie?  voc?
	Sim, sou eu  a mulher sussurrou e em seguida houve um clique.  Depressa! Venha!
Ao ver Natasha pelo facho de luz da lanterna, Debbie deixou escapar um soluo.
	Oh, meu Deus, voc est bem?
	Acho que sim. Como soube que eu estava aqui?
	Lester me contou. Eu esperei que ele adormecesse e peguei a chave em seu bolso. Oh, Natasha, acho que Lester enlouqueceu.
	Eu tenho certeza disso  Natasha afirmou.  E agora? Ele ser capaz de mat-la quando descobrir.
Debbie tremia violentamente.
	Ele acabar entendendo que no havia outra sada. Agora, podemos fazer de conta que nada aconteceu. Voc no ir  polcia, ir? Seria um escndalo. E eu me recuso a testemunhar contra Lester.
Natasha pensou em argumentar, mas mudou de ideia. De que adiantaria afinal?
	Voc  boa demais para ele, Debbie  Natasha disse aps um minuto.  O que viu em Lester?
	No sei  Debbie confessou com um suspiro.  Mas eu o amo.
Natasha suspirou por sua vez. No dava para entender o amor. Por que todas as mulheres esqueciam o bom senso quando o encontravam?
	E melhor sairmos daqui antes que Lester possa acordar.  Natasha fechou a porta e pegou a lanterna da mo de Debbie.  Quanto mais longe ficarmos dele, mais seguras estaremos.
	No irei a parte alguma. Lester seria incapaz de fazer algum mal contra mim.
	Foi o que sempre pensei e veja o que ele fez comigo.
	As circunstncias so diferentes  Debbie insistiu.   Lester entrou em pnico quando perdeu aquele dinheiro.  Ele no tem tido sorte com seus investimentos nos ltimos tempos, mas estava com esperana de resolver seu problema atravs de um amigo de Miami. No deu certo. Eu quis lhe emprestar algum dinheiro, mas ele no aceitou.
	Ao menos isso! - Natasha exclamou. Era bvio que Lester no havia contado a verdade  namorada. E aquele no era o momento para explicaes.  Ele deve ter sentido vergonha de voc.
	Acho que Lester me ama de verdade, Natasha. Ele no quis me prejudicar.
	Espero que esteja certa  Natasha murmurou.  Mas vamos sair logo daqui.
Natasha segurou a mo de Debbie e levou-a consigo para seu quarto onde separou algumas roupas e colocou-as em uma valise.
	Tem certeza de que no quer ir comigo?  Natasha insistiu.
	Tenho.
	Em todo caso, devolva a chave antes que Lester d pela falta  Natasha sugeriu embora soubesse que o conselho seria intil pois nenhuma outra pessoa poderia t-la libertado.
Debbie guardou a chave no bolso e olhou para Natasha.
	Onde est pensando em se esconder?
	Confesso que no sei. Ainda no pensei nisso.
Se fosse para um hotel, Lester e Tony de Santo a encontrariam em um piscar de olhos. Poderia deixar a ilha, mas no tinha inteno de se afastar permanentemente do cassino. Se Lester pensava que ela iria desistir de seus bens sem luta, estava enganado.
	Por que no procura aquele amigo de lorde Neville?
 disse Debbie.  Ele parecia estar gostando de voc. Talvez possa ajud-la.
Natasha baixou a cabea e, de repente, sentiu vontade de chorar.
	Hugh Garratt? Ele foi embora da ilha esta manh.
	Do chal da praia apenas  Debbie informou.  Lorde Neville me contou que seu iate est ancorado na marina de St. Paul e que ele resolveu ir para l.
O iate estava balanando gentilmente sobre as ondas. Natasha o vira chegar na semana anterior, cortando o mar e o vento como um grande pssaro. Muitas embarcaes cruzavam a baa todos os dias, mas nenhuma lhe chamara a ateno como aquela. No apenas por sua elegncia e pelas cores que se alternavam do branco a vrias nuances de azul, mas pelo nome pintado na popa, Falco.
Eram mais de onze horas quando Natasha bateu  porta da cabine. Algum estava rindo l dentro e parou. Um minuto depois a porta foi aberta por um jovem loiro de aproximadamente vinte anos de idade.
	Guten Abend  ele a saudou em alemo.  O que deseja?
Uma voz masculina deveria ter perguntado quem estava ali e o jovem respondeu novamente em alemo.
Natasha suspirou. Era um engano. Debbie no deveria ter entendido direito o nome do barco.
	Desculpe. Eu devo ter me enganado. Estou procurando o sr. Hugh Garratt.
	A senhorita no se enganou. Ele est aqui. Entre, por favor.
Natasha observou rapidamente a cabine e achou-a bonita e luxuosa. Havia dois outros jovens de idade semelhante a daquele que lhe abrira a porta e todos olhavam para ela com indisfarada curiosidade.
Hugh mostrou-se surpreso ao v-la.
	Natasha! A que devo o prazer...  Por um instante, ela havia tido a impresso de que Hugh havia ficado emocionado com sua presena, mas o sorriso irnico no demorou a surgir em seus lbios.  No  um pouco tarde para visitas?
Ela baixou os olhos. Seu orgulho a incitava a dar meia-volta e desaparecer, mas o assunto era srio demais e era preciso enfrent-lo.
	Eu preciso falar com voc. Sinto ter interrompido sua reunio.
	Ns j estvamos terminando, no , rapazes?
Todos se levantaram e se dirigiram  porta que dava para os dormitrios.
	 claro. J estvamos indo para nossos beliches. Boa noite, senhorita. Boa noite, sr. Garratt.
A expresso intrigada voltou aos olhos de Hugh. Ele a convidou para sentar  mesa que ainda continha algo que sobrara do jantar.
	Caf?  ele ofereceu.
	Sim, obrigada.
Hugh recolheu os pratos e colocou-os na lava-loua. Em seguida serviu duas xcaras de caf.
	O que houve?
Natasha hesitou. Pela primeira vez se perguntou se a ideia de procurar Hugh fora ba. Estava to aflita no momento que Debbie a libertou que no conseguiu pensar em mais nada e em mais ningum quando soube que ele ainda estava na ilha.
A reao de separar algumas mudas de roupas e de parar um txi para conduzi-la  marina fora instintiva. Mas agora, ao se lembrar de que Hugh Garratt podia ser to ou mais criminoso do que Lester, sentiu um arrepio de apreenso.
Por outro lado, que escolha lhe restava com Tony de Santo chegando no dia seguinte?
No conseguia se lembrar das palavras exatas que dissera a Hugh na noite anterior, mas sabia que foram ofensivas. E que Hugh era do tipo vingativo. O que aconteceria se ele decidisse se aproveitar de seu desespero para faz-la pagar por seus insultos, para exigir o que ela lhe negara?
Uma onda de calor lhe subiu pelo corpo. Com um fio de voz, Natasha resolveu dizer a verdade antes que perdesse a coragem.
	Lester me trancou na adega.
Hugh colocou a xcara na mesa e pediu que ela continuasse.
	Debbie me soltou. Lester pensou que voc havia partido e que ningum daria por minha falta. Ele acha que ns... que voc me levou para a cama.
	E resolveu castig-la dessa forma por causa disso?  Hugh mostrou-se estupefato.
	No exatamente  Natasha explicou, corada.  Eu... Eu no costumo convidar pessoas para subirem ao apartamento. Ao nos ver juntos, ele deduziu que voc estava planejando me seduzir para casar comigo e se apoderar do cassino. Um sorriso irnico surgiu nos lbios de Hugh.
	Lester pensou isso? Ele no a conhece!
Natasha preferiu ignorar o comentrio.
	Voc estava certo. O dinheiro que Lester perdeu pertence a Tony de Santo. Para acertar sua situao, ele quis me forar a assinar papis que dariam o cassino a Tony por um "preo justo", segundo suas palavras.
Hugh tomou um gole do caf antes de continuar.
	E se voc no concordasse...
	O preo cairia dia a dia enquanto eu me recusasse a assinar e continuaria trancada no escuro e sem comida.  Natasha deu um sorriso dbil.  Eu deveria ter ouvido voc quando me aconselhou a no subestim-lo.
Hugh franziu o rosto.
	O que pretende fazer? Ir  polcia?
Natasha negou com um movimento de cabea.
	No posso. Debbie  minha nica testemunha e ela me avisou que no deporia contra Lester. Espero que ele no faa nada contra ela quando descobrir que eu fugi. Tentei traz-la comigo, mas ela se recusou a deix-lo. Garantiu-me que Lester no seria capaz de machuc-la.
	Acho que ela est certa.  voc quem est no caminho dele, no Debbie.
Alm disso, no creio que a polcia local tenha condies de resolver o problema.  Uma pontada no estmago a fez dobrar o corpo para a frente.  Desculpe, mas voc tem um pedao de po ou qualquer outra coisa para eu comer?
	Claro que sim. O que acha de uma omelete?
	Seria excelente.
Natasha ficou olhando enquanto Hugh quebrava os ovos em um prato. Parecia estranho ver um homem to grande em uma cozinha to pequena, mas ele cozinhava com surpreendente desenvoltura. Quando levou os ovos ao fogo, perguntou se ela queria queijo ou cogumelos como recheio.
Queijo, por favor.
A fome somou-se a excitao. Hugh estava ainda mais bonito e msculo de shorts e camiseta. Ele tinha pernas longas e bronzeadas e no eram demasiadamente peludas.
De que adiantara tentar se convencer de que no queria aquele homem a sua frente? Estava completamente apaixonada por ele. Tudo que queria, naquele momento, era que Hugh a tomasse em seus braos e a fizesse sentir novamente o calor de suas carcias.
	Devo entender que Lester no percebeu que ns abrimos o cofre dele?  Hugh perguntou de costas para ela.
	No, ele no notou nada.  Natasha engoliu em seco.  Voc conseguiu descobrir mais alguma coisa?
	Nada ainda, mas se ele est usando o cassino como fachada para lavar dinheiro para aqueles sujeitos de Miami, ele deve estar usando uma cadeia de bancos. Tenho um amigo que, talvez, possa nos ajudar a localizar algumas contas.
Natasha ouviu em silncio. Precisava confiar em Hugh. Ao mesmo tempo, no podia se deixar levar pela voz do corao. Sua nica chance era manter o raciocnio claro. No queria se tornar uma outra Debbie.
Hugh passou a omelete para um prato e colocou-o diante de Natasha com um floreio.
	Mais caf?
	Sim, por favor  ela agradeceu e se ps a comer com apetite e tambm a observ-lo.
O que estaria se passando na mente de Hugh? Ele era gil e sabia representar como um ator profissional. O que havia por trs de seu pedido de casamento?
Se fosse apenas por convenincia, por que seus beijos eram to intensos? E por que ele queria lhe fazer amor?
Talvez Hugh quisesse um casamento de verdade, mas no at que a morte os separasse. Sua inteno deveria ser unir o til ao agradvel. O casamento poderia durar at que ela assumisse a herana por exemplo.
O que ela deveria fazer? E se aceitasse a proposta de Hugh, mas segundo seus termos? Talvez essa fosse a nica sada. Ela se livraria da perseguio de Lester. Por outro lado, poderia sucumbir ao feitio daqueles olhos cinzentos.
O que quer que resolvesse, seria preciso ter muito cuidado...
No era fcil. Se olhava para Hugh, no conseguia parar de pensar em seus beijos. Se olhava pela janela, via o reflexo dele contra a escurido da noite. E o ambiente era por demais romntico. Um iate flutuando nas guas mansas da baa, o cu enluarado...
	 um bonito barco. Parece ser veloz  disse  guisa de conversao.
	E bastante veloz  ele confirmou.  Deveria ter as sistido ao desafio de Whitbread em maio.
	Voc participou daquela competio ao redor do mundo?  Natasha indagou, perplexa.
	Sim. Dois dos rapazes da tripulao viajaram comigo. Fomos muito bem no incio. Chegamos a ganhar alguns trofeus. Mas tivemos problemas com um dos mastros na costa do Brasil e precisamos nos retirar da competio.  Hugh encolheu os ombros.  Haver outras oportunidades.
	Voc  o capito deste barco?
Hugh fez que sim com simplicidade, mas Natasha sabia que era preciso ser muito bom para participar de uma corrida nutica de trinta e duas mil milhas. Eram cento e trinta dias  merc das intempries. Um jogo de pquer deveria ter parecido uma brincadeira de criana em comparao.
Natasha terminou de comer a omelete e levou o prato  pia. Saciada a fome, veio o sono. Ela no havia dormido bem a noite anterior e o dia fora um dos piores de sua vida.
	Voc parece estar precisando de uma cama.
Natasha sufocou um bocejo.
	Antes preciso decidir o que fazer.
	Quanto tempo acha que Lester levar para descobrir sobre sua fuga?
	No muito. Talvez j tenha descoberto  Natasha murmurou.
	E a?
	Eu no sei. Espero que Debbie esteja certa e que ele se arrependa do que fez quando a bebedeira passar.
	Eu no acreditaria nisso em seu lugar  Hugh declarou.  H muito dinheiro envolvido e se ele est em dbito com o crime organizado, entrar em desespero quando no encontr-la onde a deixou.
Natasha respirou fundo.
	No sei o que fazer.
	No h muito o que pensar  Hugh afirmou.  O quanto antes voc assumir o controle de sua propriedade, mais segura estar.
Natasha estreitou os olhos e se preparou para ouvir a repetio da proposta.
	Eu no estou familiarizada com os trmites da lei, mas penso que no ser fcil afast-lo de sua tarefa de guardio de meus bens a menos que prove que ele est agindo de m-f. Sei tambm que o processo seria longo e caro e que eu poderia sofrer represlias nesse nterim.
Hugh estava fitando-a intensamente.
	Voc no teria de se preocupar com mais nada se ns nos casssemos.
Natasha sentiu dificuldade para respirar. Hugh havia dito o que ela esperava que ele dissesse. Por qu, ento, seu corao estava batendo to descompassado?
	Admito que essa seria uma soluo.
	 a nica em que consigo pensar se voc realmente deseja se livrar de Lester de maneira rpida e definitiva. 
Natasha fez que sim com a cabea.
	Mas  eu no gostaria de  lhe  causar nenhuma inconvenincia.
Uma expresso enigmtica passou pelos olhos de Hugh.
	No seria nenhuma inconvenincia. Apenas uma questo de formalidade legal. Alm disso, me dar um grande prazer ser o responsvel por mais uma derrota de Lester. Para no haver problemas mais tarde, poderemos assinar um acordo pr-matrimonial. Dessa forma nenhum de ns poder reclamar algo do outro quando o casamento terminar.
Por aquela, Natasha no esperava. O que Hugh estava tramando?
	Bem, se voc tem certeza...
Natasha mal podia acreditar que Hugh Garratt estava prestes a se tornar seu marido. Mesmo que o casamento no fosse de verdade...
	No h tempo a perder  Hugh declarou.  Uma vez casados, menos chances Lester ter de criar problemas.
	Sim, acho que sim, mas no existe um prazo para correrem os proclamas?  Natasha indagou, ainda atnita.
	No no Caribe. Muitos casais procuram estas ilhas quando resolvem casar porque o processo  rpido alm de fornecer o palco ideal para uma lua-de-mel  Hugh brincou.
 Conheci um casal o ano passado que veio at aqui apenas para casar. Eles compraram um pacote de casamento, segundo suas prprias palavras. Disseram que o hotel se encarregou de todos os preparativos.
	Sim, eu sei.
Ento estava acertado. Ela seria esposa de Hugh Garratt. A perspectiva a fascinava embora tivesse medo de admitir. E quanto mais pensava nas implicaes daquele acordo, mais calor sentia.
	Eu tenho uma pergunta a lhe fazer  Natasha murmurou.  Sobre esse acordo pr-nupcial que mencionou. Se voc no se importa, eu acho que deveramos incluir uma clusula sobre... Bem, eu...
Hugh se limitou a fit-la. Natasha precisou virar o rosto para o outro lado.
	Quero incluir uma clusula sobre no dormirmos juntos.
	Seu pedido me parece razovel  Hugh concordou de imediato, embora seu sorriso dissesse outra coisa.  E agora que ficou tudo acertado, vamos nos recolher. Ns dois estamos precisando descansar. Venha comigo at minha cabine. Eu a cederei a voc esta noite.
	E voc? Onde dormir?
	H um lugar vago em um dos beliches.
	Voc no ficar desconfortvel?  Natasha indagou, constrangida e decepcionada, embora nunca fosse admitir isso. Afinal, no esperava realmente que Hugh fosse con cordar com tanta facilidade com sua exigncia.
Ele sorriu.
	No se preocupe. Estou acostumado.
CAPITULO VIII

	Eu os declaro marido e mulher.  Felicidades!
Natasha pestanejou ao perceber que o juiz da ilha estava lhe estendendo a mo para cumpriment-la. As ltimas vinte e quatro horas haviam sido as mais fantsticas de sua vida. Nesse pequeno espao de tempo, ela havia aceitado a proposta de casamento de um homem que mal conhecia e sobre quem no sabia quase nada. E j estava casada com ele!
Para a cerimnia, ela havia alugado um vestido no prprio hotel onde o casamento seria celebrado. Era simples, mas muito bonito, em cetim branco. O cabeleireiro do hotel havia se encarregado do penteado e do arranjo. Ele prendeu seus cabelos no alto da cabea e transformou as mechas em uma infinidade de cachos entre os quais prendeu flores minsculas. Seu tio Timothy a entregou a Hugh. Debbie foi sua dama de honra.
Hugh estava usando o mesmo palet branco, de corte impecvel, com que visitara o cassino, mas havia acrescentado uma gravata borboleta de seda vermelha e uma orqudea tambm vermelha na lapela.
Embora os convidados fossem poucos, Natasha sentiu os olhares de admirao e de inveja que dirigiram a eles quando se dirigiram ao local onde trs outros casamentos j haviam sido realizados.
Por mais simples e rpida que tivesse sido a cerimnia, Natasha no pde deixar de se sentir uma verdadeira noiva. O hotel havia providenciado uma pequena prgula coberta por um maravilhoso arco de flores brancas. Ao fundo, o cenrio era azul. O mar do Caribe.
Ainda no conseguia entender como Hugh conseguira dar conta dos preparativos to rpido. Ele, obviamente, era do tipo que sabia comandar. A um estalar de dedos, suas ordens eram cumpridas.
Obrigou-se a no se deixar seduzir por esse outro aspecto da personalidade de seu marido. Afinal, no estavam casados no sentido pleno da palavra. O papel que ambos haviam assinado aquela manh, transmitido por e-mail por um advogado da Inglaterra, estabelecia esse fato. Hugh e ela permaneceriam casados apenas o tempo necessrio para que ela assumisse a herana que lhe cabia por direito. Feito isso, o casamento seria anulado.
	No vai beijar a noiva, sr. Garratt?  disse Franco, um dos rapazes da tripulao que, como os outros, tambm estava usando um palet alugado no hotel.
Lorde Neville que aceitara ser o padrinho dos noivos no escondia sua curiosidade. Nem mesmo ele havia sido informado sobre as razes que levaram Hugh e Natasha a um casamento to precipitado. Natasha havia acatado a opinio de Hugh sobre terem mais chances de sucesso contra Lester se ningum deixasse escapar a verdade sobre eles dois.
Natasha hesitou ao ver Hugh nclinar-se para ela. Ele a segurou pelos ombros e cochichou em seu ouvido.
	Precisamos fazer de conta que  real. No queremos que desconfiem de que se trata de um casamento de convenincia, no ?
Ao coro de risadas e assobios, Hugh enlaou-a pela cintura e apoderou-se de seus lbios em um beijo que satisfaria at o mais desconfiado dos presentes. Ningum que os visse, poderia pensar que no estavam apaixonados um pelo outro.
Natasha tentou se desvencilhar, aproveitando-se da chuva de confete com que os convidados os cumprimentaram, mas Hugh a manteve junto a seu peito por mais alguns instantes.
	Voc deve estar preocupada com os rapazes  Hugh disse com aquele seu sorriso irresistvel.  Eu j cuidei disso. Reservei um quarto no hotel para esta noite para que eles nos deixem em paz. A noite de npcias...
	Meus parabns!  Tio Timothy se aproximou e apertou efusivamente a mo de Hugh.  Minha sobrinha no poderia ter feito melhor escolha.  Ele se virou para Natasha, abraou-a e beijou-a.  Desejo toda a felicidade do mundo a voc.
	Obrigada, tio Timothy  ela respondeu.  Voc no ir esquecer de marcar uma reunio com Lester amanh?
O tio piscou, malicioso.
	Preocupada com negcios no dia de seu casamento? Esto em lua-de-mel. Tenho certeza de que seu marido e voc tm coisas mais interessantes para fazer do que pensar em Lester.
	Sem sombra de dvida  Hugh concordou e puxou Natasha ao seu encontro.  E por isso que queremos nos livrar desse assunto o quanto antes. Para podermos nos divertir em paz, depois.
	E claro,  claro  o tio respondeu.  Deixem comigo. Eu providenciarei para que Lester esteja em meu escritrio amanh s duas horas. O que acham?
	Excelente. Obrigado.
Natasha no respondeu. Estava temerosa com respeito ao encontro. Lester ficaria furioso quando soubesse o que havia acontecido s suas costas.
	Natasha, voc no ir jogar o buque?  Debbie perguntou e Natasha prontamente o fez, surpresa que a antiga tradio romntica ainda tivesse significado especial para a mulher que se tornara sua grande amiga.
	Que acham de entrarmos para jantar?  Hugh props, terminada a sesso de fotos.
Os convidados seguiram os noivos pelos amplos jardins do hotel at um terrao onde uma mesa havia sido reservada para a comemorao. Mais uma vez, o pessoal do hotel havia caprichado na decorao. At mesmo as cadeiras dos noivos estavam enfeitadas com flores.
Uma toalha branca cobria a mesa arrumada com cristais, porcelanas e pratarias. No centro havia um bolo de dois andares com noivinhos de marzip no topo.
	Voc  o responsvel por isto tambm?  Natasha perguntou baixinho a Hugh.
	Faz parte do pacote  ele respondeu.
	Deve ter custado caro. Fao questo de reembols-lo pelas despesas assim que a propriedade for colocada em meu nome.
No seria justo permitir que Hugh arcasse com todas as despesas sozinho. Ele tinha interesse em se vingar de Lester, mas ela, afinal, seria a maior beneficiria.
	Mais tarde resolveremos isso  Hugh prometeu.  Agora, temos discursos a fazer e um bolo a ser cortado.
Aproveite, Natasha. Isto  uma festa.
Natasha percebeu que Hugh estava se portando com naturalidade. Como era possvel? Hugh havia nascido para ser ator. Ele representava qualquer papel com autenticidade. Ningum diria que ele havia assinado um acordo que estabelecia distncia da noiva, ao v-lo abrindo a garrafa de champanhe e servindo os convidados.
	A Natasha e Hugh  lorde Neville brindou.  Que todos seus problemas sejam facilmente resolvidos. E que sejam poucos!
Hugh olhou para Natasha naquele momento e encostou sua taa  dela.
	A ns.
Apesar da dor aguda que estava apertando seu corao, Natasha conseguiu sorrir. Estava arrependida do passo que dera. Como pudera concordar com um casamento de convenincia? No poderia haver um outro modo de enfrentar Lester?
Aconteceu depressa demais. No houve tempo para reflexes. As horas se atropelaram desde que Lester a trancara naquela adega escura. Ela no conseguiu parar e ouvir a voz de sua conscincia.
Mas havia opo? Agora, Spaniard's Cove passaria para seu nome em poucos dias. Lester poderia tentar recorrer juridicamente, mas isso de nada adiantaria. O casamento havia sido legal.
Quanto a Hugh, ela havia assinado um termo que garantiria a ele uma parte da herana, desde que ele cumprisse sua parte no acordo. Parecia-lhe mais do que justo que ele recebesse alguma recompensa por seu esforo.
Estavam sendo comemorados dois outros casamentos no terrao, mas o de Hugh e Natasha era, de longe, o mais festejado. Todos estavam se divertindo naquele jantar regado a um fino champanhe ao crepsculo dourado.
Quando o cu escureceu, os garons trouxeram candelabros  mesa e acenderam as velas. Logo depois, um pianista comeou a tocar msicas suaves e os casais se dirigiram  pista de dana.
Hugh se levantou e estendeu a mo para Natasha.
	Dana com seu marido?
Natasha hesitou ao recordar os momentos em que estivera nos braos de Hugh ao som de uma msica. O perfume que se desprendia da pele dele, a firmeza de seu corpo junto ao dela, o modo como ele a beijara...
	No seja tmida!  Tio Timothy brincou ao v-la corada.  Vocs agora esto casados.
	Sim  Hugh murmurou.  Ns estamos casados agora.
O arrepio que percorreu as costas de Natasha foi to forte que Hugh o detectou. Ela se sentiu ainda mais vulnervel. No podia trair seus sentimentos. Hugh poderia tirar vantagem de sua fraqueza. Ele sabia que bastaria toc-la...
	Relaxe  ele sussurrou em seu ouvido ao estreit-la nos braos.  Todos esperam que a noiva esteja radiante no dia de seu casamento.
	Este no  um casamento como os outros  Natasha respondeu.
	Eu havia me esquecido desse detalhe  Hugh declarou.  Mas no se preocupe. Dormiremos em camas separadas. Eu reservei uma sute. Dormiremos at mesmo em quartos separados. Voc no corre nenhum perigo.
Natasha engoliu em seco. O grande problema era que no tinha certeza se queria que Hugh respeitasse o acordo.
Aps a primeira msica, Natasha foi convidada para danar por seu tio e pelo padrinho, lorde Neville. E por cada um dos membros da tripulao de Hugh.
Estava ficando tarde e tio Timothy resolveu se despedir. Lorde Neville seguiu-lhe o exemplo e se ofereceu, gentilmente, para levar Debbie de volta ao cassino. Os rapazes decidiram esticar a noite em uma discoteca e Natasha e Hugh ficaram finalmente a ss.
	Gostaria de danar mais um pouco?
Natasha concordou com um gesto de cabea e deixou-se levar para a pista. Hugh abraou-a e ela fechou os olhos, inebriada pelo calor e pelo perfume que se desprendiam daquele corpo forte e atraente.
Foi preciso empregar toda sua fora de vontade para no ceder  tentao de repousar a cabea no ombro de Hugh. Era quase uma necessidade. Ela o queria. Ela o amava.
Uma vontade imensa de chorar a invadiu. Estava vestida de noiva e danava com seu marido na festa do seu casamento. Mas era um casamento de faz-de-conta.
No sabia nem sequer quanto tempo duraria. Em poucos dias, Hugh poderia estar deixando-a e voltando para a Inglaterra. Ela no conhecia o homem que era seu marido. No sabia praticamente nada a seu respeito. A nica coisa que sabia era que daria tudo, naquele momento, para que seu casamento fosse de verdade.
Uma brisa fresca soprava do mar enquanto eles danavam. A noite estava adentrando a madrugada. Sua noite de npcias. Mas ela havia obrigado Hugh a assinar um termo nesse sentido e ele respeitara sua vontade.
O momento no pde mais ser adiado. Os outros convidados e noivos j haviam se retirado. S estavam Hugh, ela, o pianista e os garons no terrao.
Hugh a fez encar-lo.
	Est na hora de subirmos, no acha?
Ela olhou imediatamente em outra direo.
	Sim,  claro.
O vestido longo e branco atraiu os olhares de todos que ainda estavam no saguo do hotel. Natasha sentiu que corava. E o constrangimento aumentou quando um casal idoso entrou no elevador junto com eles.
Voc est linda, querida. Espero que sejam to felizes quanto ns temos sido. A mulher olhou para o marido e eles trocaram um doce sorriso.  Estamos comemorando nossas bodas de ouro.
Natasha sentiu o corao despedaar. Era o que ela sempre sonhara. Um casamento para toda a vida. No entanto, no teria Hugh a seu lado mais do que algumas semanas. Um ms, no mximo.
Hugh a segurou pelo brao quando o elevador parou e a conduziu a uma porta no final do corredor. Enquanto introduzia a chave na fechadura, dirigiu-lhe um olhar divertido, ciente do quanto ela estava tensa.
Ele abriu a porta e esperou que ela entrasse. Natasha perdeu o flego. Hugh havia reservado a sute nupcial. A decorao no poderia ser mais romntica, em rosa e dourado. No quarto, a cama de dossel estava coberta por tule branco e no centro da mesa havia uma linda cesta de rosas vermelhas cujo perfume se espalhava pelo ambiente.
	Cumprimentos da casa  Hugh explicou.  Assim como o champanhe  ele acrescentou e se preparou para abri-lo.
 Seria um desperdcio no aproveitarmos, no acha?
Natasha concordou em silncio. No confiava na firmeza de sua voz. Fora um dia perfeito. O casamento  beira da praia, com a msica do mar azul ao fundo, as rosas, o vestido branco de cetim.
A rolha saltou da garrafa e Hugh se apressou a derramar a bebida dourada e borbulhante nas taas em forma de tulipas.
	A que beberemos?  Hugh perguntou.
	No sei  Natasha respondeu. Estava se lembrando do casal no elevador que comemorava as bodas de ouro. Cinquenta anos casados e ainda andavam de mos dadas.
	Que tal ao sucesso de nosso pequeno plano?
	Sim,  claro  concordou, distrada.
A mensagem que leu nos olhos cinzentos lhe disse outra coisa. Ela fez seu corao bater mais rpido, tornou-a consciente de sua respirao, que movia os seios para cima e Ipara baixo sob o decote do vestido. 
Hugh encostou sua taa  dela e tomou um gole do champanhe. Natasha fez o mesmo, mas evitou fit-lo. Se Hugh soubesse como seria fcil faz-la esquecer uma determinada clusula... Bastaria tom-la nos braos e beij-la para conseguir sua total rendio.
	Bem, acho que vou para a cama  ela disse por fim. 	Estou exausta. Quase no dormi a noite passada.
	Nem eu  Hugh confessou.  Voc estava certa. Beliches no so confortveis. E descobri que Jurgens ronca.
Natasha pestanejou.
	Acha que conseguir dormir no sof?
O que havia com ela?, Natasha censurou-se. E se Hugh adivinhasse que aquilo era uma espcie de convite para ele ir para o quarto?
	Darei um jeito.
	Est bem  Natasha respondeu, sentindo-se novamente corada. Era sua noite de npcias, afinal. Hugh no iria nem sequer lhe dar um beijo? No iria nem sequer tentar faz-la mudar de ideia?  Boa noite, ento.
	Boa noite.
Como um autmato, Natasha colocou a taa ao lado das rosas e se dirigiu ao quarto. Fechou a porta e tambm os olhos. Era o que ela queria, no?
Uma batida cinco minutos depois fez o corao de Natasha disparar no peito.
	Desculpe incomod-la  Hugh disse com um sorriso. 	Voc poderia me emprestar um travesseiro?
	Oh, sim. Sim,  claro  Natasha se obrigou a responder.
	Obrigado.
Hugh entrou no quarto e tomou cuidado para no esbarrar nela ao passar pela porta. Assim que apanhou um dos travesseiros, voltou para a sala em silncio.
Natasha sentou-se na beirada da cama e fechou os olhos. Deveria ter enlouquecido quando aceitou a proposta de Hugh. De amor. De outra maneira, certamente teria encontrado outra soluo para seu problema com Lester. Mas no. Deixara-se embalar pela fantasia de que Hugh, por algum milagre, tambm estava apaixonado por ela e que essa fora a razo que o levara a lhe sugerir aquela estratgia.
Mas o milagre no havia acontecido.
Natasha no saberia dizer quanto tempo passou at ela reunir foras para se levantar e tirar o vestido de noiva. Um vestido maravilhoso. Que teria de devolver no dia seguinte porque no lhe pertencia. Assim como seu marido.
O espelho refletiu-a de corpo inteiro quando se dirigiu ao banheiro para tomar uma ducha. A lingerie era linda. Mas Hugh no a veria.
Decidiu-se por um banho frio. Precisava apagar o fogo que a queimava por dentro a qualquer preo.
Mas no adiantou. Nem sequer as gotas frias tiveram o poder de acalmar seus pensamentos. Imaginava Hugh tirando a roupa e se deitando no sof. E se levantando para ir  procura dela e tom-la nos braos.
Natasha enxugou-se vigorosamente e sacudiu os cabelos que prendera com uma touca de plstico. Vestiu um robe e voltou para o quarto. Estava acabando de se sentar diante da penteadeira para escovar os cabelos quando ouviu uma nova batida  porta.
	Entre.
Ele deveria ter adivinhado mais do que ouvido sua voz porque ela custara a sair. Hugh havia tirado o palet e a gravata borboleta. A camisa estava desabotoada no peito e seu olhar se perdeu naqueles plos por um momento.
	Queira desculpar  disse Hugh com os olhos voltados para as peas ntimas colocadas na cadeira.  Exatamente como pensei  ele continuou com um sorriso.  Se Lester resolver fazer uma investigao junto ao pessoal do hotel, no podemos permitir que eles vejam sua roupa dobrada com tanto cuidado.  Hugh pegou o suti de renda e as meias e deixou uma das peas no cho perto da penteadeira e as outras no cho ao lado da cama.
Terminada a tarefa, Hugh olhou para Natasha com satisfao e tornou a lhe desejar boa-noite antes de sair e fechar a porta.
Mentiras, Natasha pensou. Aquela aparncia de uma noite de amor era tudo mentira. Duas lgrimas deslizaram por seu rosto enquanto tirava as flores que ainda enfeitavam seus cabelos.
O telefone tocava com insistncia, mas Natasha no queria atender. Se ficasse quieta, talvez o sonho continuasse.
Sentou-se abruptamente quando o telefone parou de tocar e ela se lembrou de Hugh do outro lado.
No teve tempo para puxar o lenol sobre o peito. Hugh entrou, sonolento, e se aproximou da cama.
	Para voc.  Ele indicou o telefone sobre a mesa-de-cabeceira.
Natasha franziu o cenho. Quem poderia estar ligando para ela to cedo sabendo que estava em lua-de-mel?
	Quem fala?
	Debbie.
Natasha apertou o fone com tanta fora que poderia parti-lo ao meio.
	Debbie? O que houve?
	Desculpe incomod-la  Debbie parecia agitada , mas algo terrvel aconteceu. Houve um assalto em seu apartamento. Lester ficou ferido e foi hospitalizado.
Natasha sentiu um frio de morte invadi-la. Hugh estava de p, no meio do quarto, olhando para ela. Ele tambm havia estado no apartamento e aberto o cofre...
	O que fizeram com Lester?
	Eles o amarraram a uma cadeira e deram uma pancada em sua cabea. Oh, Natasha...
	O estado dele  grave?  Natasha perguntou ao ouvir Debbie chorar.
	No. Ele no queria ir para o hospital. Eu insisti. 
	Levaram muitas coisas?
	No. Lester os surpreendeu antes que terminassem o servio. Mas fizeram um grande estrago.
	Irei imediatamente.
	Sinto muito, Natasha. No queria atrapalhar sua lua-de-mel, mas...
	No se preocupe com isso  Natasha interrompeu a outra e olhou para Hugh com raiva. Estava certa de que
Hugh estava envolvido naquele assunto. Ele a usara como libi.  Estarei a dentro de meia hora.
Hugh a encarava, intrigado.
	O que aconteceu?
	Assaltaram o cassino e machucaram Lester. Ele est hospitalizado. Preciso ir e verificar a situao. Voc poderia se retirar para eu me vestir?
	Irei com voc. Pedirei que sirvam o caf no quarto para ganharmos tempo.
	No se apresse por mim. Posso perfeitamente ir sozinha.
Hugh estreitou os olhos.
	Qual  o problema?
	Nenhum.
Hugh foi at a cama e sentou-se sem parar de sorrir. Natasha quis virar o rosto, mas ele a segurou pelo queixo e a fez encar-lo.
	Acorda sempre mal-humorada ou hoje  uma exceo?
	E coincidncia demais para meu gosto  Natasha respondeu, tensa.  O cassino nunca foi assaltado antes. Voc sabe onde fica o cofre e tambm sua combinao.
	Assim como sabia que no havia nada de valor em seu interior.
Natasha hesitou. Nesse ponto, Hugh tinha razo.
	Mas como voc no confia em mim, sou o primeiro suspeito, certo?  Hugh provocou-a.
	No tenho muitos motivos para confiar em voc  Natasha retrucou.  Como posso saber se o que me diz  verdade? Ser que seu sobrinho realmente existe e que Lester o enganou? Como posso ter certeza de que voc cumprir sua promessa e no tentar se apoderar de meu cassino? Quem me garante que no  to mentiroso quanto Lester? Eu no sei nada a seu respeito!
Hugh sorriu como se achasse engraada a reao de Natasha.
	No entanto, aceitou casar comigo.
CAPITULO IX

A sala estava completamente revirada. O sof sstava de pernas para o ar, o abajur espatifado e os livros que escondiam o cofre estavam espalhados por toda parte. A corda com que Lester havia sido amarrado estava pendurada no encosto da cadeira.
	Srta. Cole. Quero dizer, sra. Garratt  o policial cumprimentou-a com um sorriso.  Permita-me parabeniz-la apesar do momento imprprio.
	Obrigada, inspetor  Natasha respondeu.  Este  meu marido.
	O senhor encontrou alguma pista que leve ao responsvel por isto?  Hugh quis saber.
	Se est se referindo a impresses digitais, eles no deixaram nenhuma  o inspetor esclareceu.  No no cofre, ao menos.
	Ento os ladres usaram luvas?  Natasha indagou, lembrando-se das luvas que Hugh usara.
	No, sra. Garratt. O cofre foi limpo aps a operao. Sabe se a faxineira esteve aqui?
	Sim, ela fez a limpeza ontem de manh.
	Acha provvel que ela tenha polido a porta do cofre?
	No  Natasha respondeu, intrigada.  Ela no deve nem sequer saber sobre sua existncia.
	Foi o que pensei  murmurou o inspetor.
	 estranho  Hugh observou.  Por que eles se da riam ao trabalho de limpar o cofre se estavam usando luvas?
E se no estavam de luvas...
		Ns teramos encontrado suas impresses em outros lugares  o inspetor confirmou.
Hugh pegou a corda e examinou-a com interesse.
	Nailon. Os ns deveriam estar bem apertados.
	No muito  disse o inspetor.  O sr. Jackson con seguiu se soltar e ligar para a srta. Lowe.
	Foi ele prprio que avisou Debbie?  Natasha perguntou, estarrecida.
	Sim - respondeu o inspetor.  Foi ela quem chamou a polcia.
	 realmente estranho  repetiu Hugh.
	Lester deveria estar confuso. Ele recebeu uma pancada na cabea  Natasha lembrou.
	Talvez.
	O que o senhor est querendo dizer?  Natasha perguntou, desconfiada.
	Que a pancada no foi sria.
A implicao era bvia.
	O senhor acredita que Lester forjou o assalto?
	 uma possibilidade  o inspetor admitiu.
	Mas, por qu?  Natasha protestou.  Por que ele simularia um assalto e daria uma pancada na prpria cabea? No faz sentido.
	Ele queria que voc passasse a suspeitar de mim. E foi justamente o que aconteceu  disse Hugh.  Ele queria nos separar para impedi-la de requerer a posse do cassino.
Forada a reconhecer a lgica da explicao, Natasha assentiu.
	Talvez voc esteja certo. Talvez seja melhor irmos ao hospital. 
Natasha no falou nem sequer uma palavra durante o trajeto. Todas suas suspeitas, at o momento, sobre Hugh haviam sido infundadas. Ele havia dito a verdade quando lhe contara sobre o envolvimento de Lester com Tony de Santo e no havia sido o responsvel pelo assalto. Ele havia proposto, inclusive, um acordo pr-nupcial que o impediria de reclamar qualquer direito sobre o cassino quando o casamento chegasse ao fim.
Natasha olhou de esguelha para Hugh no txi que seguia em direo ao hospital. Ele era seu marido e ao mesmo tempo no era. Apaixonara-se por ele e no entanto aceitara despos-lo como se estivesse fazendo um negcio. Como poderia dizer, agora, que queria mudar os termos do acordo?
O hospital da ilha ficava nos arredores de St. Paul. Antes de seguirem para l, Natasha havia combinado com tio Ti-mothy para que a reunio se realizasse l e no no escritrio.
Uma enfermeira os conduziu ao quarto onde encontraram Lester sentado, queixando-se a Debbie sob o olhar atento do advogado.
	Tenha mais um pouco de pacincia  Debbie estava dizendo.  O mdico disse que amanh voc poder ir para casa.
	Amanh? Eu tive uma concusso. Isso pode ser perigoso.  S ento Lester viu Natasha.  Ah, voc est a.
Finalmente. Espero que me agradea ao menos. Eu poderia ter sido morto.
	Parece que voc teve muita sorte  disse Natasha.
	Sim. Mas se voc estivesse em casa, nada disso teria acontecido.
	No? Por qu?
Lester olhou para Hugh com desprezo.
	No creio que sejam necessrias explicaes. Se voc tem um pouco de inteligncia, deduzir por si mesma.
	Claro que sim. Se eu ainda estivesse em casa, estaria trancada na adega.
Lester puxou os lenis como se tivesse ficado enroscado neles, de repente, e no tivesse ouvido a acusao. Enquanto isso, tio Timothy tirou alguns papis de sua pasta e colocou-os na mesa ao lado da cama.
	Ento voc casou com esse sujeito, sua tola  Lester resmungou.  Eu avisei-a para tomar cuidado. No entanto voc deixou que um aventureiro se aproveitasse de sua boa-f. Deveria ter me escutado.
	No h nada que voc possa fazer agora, meu caro  interveio tio Timothy.
	Como no? Eu posso conseguir a anulao desse casamento!
	No h motivos legais para isso  o outro declarou.
	No? O sujeito  um caa-dotes!
	Voc mandou investig-lo, por acaso?  indagou tio Timothy.
	No. No houve tempo.
	Voc no teria tido nenhum trabalho. D uma olhada nisto.  O segundo curador entregou uma revista a Lester. Curiosa, Natasha colocou-se ao lado do padrasto para verificar de que se tratava. Quase parou de respirar quando viu a foto de Hugh com uma pequena biografia. Ele era dono de uma das maiores fortunas do pas.
	Por que no me contou?  ela quis saber.
Hugh encolheu os ombros.
	Tive medo de que voc aceitasse casar comigo por causa de meu dinheiro.
Um intenso rubor cobriu o rosto de Natasha.
	Voc esteve se divertindo a minha custa durante todo o tempo.
Hugh segurou a mo de Natasha e levou-a aos lbios. 	No durante todo o tempo.
A noite estava agradvel e o barco balanava suavemente preso  ncora. Diante dos acontecimentos, Hugh achara mais seguro levar Natasha para longe da baa e do ancoradouro.
Os rapazes estavam na praia ao redor de uma fogueira. Natasha olhou  distncia e ficou ouvindo as notas da cano que estavam cantando ao violo trazidas pela brisa.
Hugh e ela haviam jantado no deque e agora estavam recostados nas almofadas, olhando as estrelas no cu.
	Seu barco  muito bonito  Natasha elogiou e Hugh sorriu, orgulhoso.   seu realmente?
Ele fez que sim com a cabea.
	Eu colaborei no projeto tambm.
	Voc me disse que trabalhava no ramo de construes. Hugh sorriu.
	Na verdade,  meu irmo quem cuida dessa rea. Desde menino, eu sempre me ocupei com o estaleiro da famlia. Trabalhei duro, mas valeu a pena.
	Eu gostaria que voc tivesse me contado  Natasha murmurou.  Lester quase conseguiu me convencer de que voc no passava de um caa-dotes.
	Ele estava enganado  Hugh disse com um sorriso.
	Por que escondeu de mim?  Natasha insistiu.  Poderia ter me contado quando eu me ofereci para reembols-lo das despesas.
	Talvez porque eu preferia que aprendesse a confiar em mim guiada por seu corao.
	Por que isso lhe parecia to importante?
	Porque  preciso haver confiana alm de amor entre duas pessoas.
Natasha riu, trmula.
	Quem falou em amor?
	Eu.
	No seja bobo  Natasha retrucou, ansiosa.   apenas atrao fsica. Ns mal nos conhecemos.
Natasha sentiu que Hugh estava se aproximando dela.
	Voc confiou em mim o suficiente para casar comigo.
	Aquilo foi diferente. Uma questo de interesses comuns.
Natasha sentiu os dedos de Hugh percorrerem seu brao e lhe provocarem um arrepio.
	Foi uma maneira conveniente que encontrei de convenc-la a casar comigo. Resta saber agora se confia em mim o suficiente para deixar que eu lhe faa amor.
Hugh a fez deitar a cabea na curva de seu brao e se ps a lhe beijar as plpebras, as faces, os cantos da boca. Natasha no conseguiu reagir  magia da noite e do homem que era seu marido.
	E o acordo que assinamos?  protestou com um fio de voz.
	Ele nunca foi vlido  Hugh disse, sedutor.  Nossas assinaturas no foram testemunhadas.
No fundo ela sabia disso. Era uma mulher de negcios, afinal. Mas seu subconsciente no quisera encontrar nenhum motivo que a impedisse de aceitar o pedido de casamento de Hugh.
	No est preocupado que eu resolva exigir metade de sua fortuna?
	No  Hugh respondeu com absoluta certeza.  No tenho planos de me divorciar de voc. Jamais.
Os beijos de Hugh minaram as resistncias de Natasha. Por um momento. Seria to fcil se render de uma vez. Ela s precisava se soltar. Mas parte de sua mente continuava presa ao hbito antigo de suspeitar de tudo e de todos. Poderia acreditar realmente que Hugh estava sendo sincero? Tinha medo de deixar Spaniard's Cove por um punhado de promessas vazias.
	Eu quero confiar em voc  Natasha murmurou , mas...
	No pense. Apenas oua seu corao  Hugh pediu e tornou a beij-la com uma intensidade que pretendia der
rubar as ltimas barreiras que os separavam de um total entendimento.
Natasha estava to fascinada com as carcias que Hugh lhe fazia que no percebeu que ele havia desabotoado sua blusa at sentir as duas mos em suas costas. Um gemido escapou de sua garganta no momento que elas procuraram a maciez dos seios sob o suti e traaram o contorno dos mamilos.
	Percebe como tudo se torna mais fcil quando voc pra de tentar racionalizar as emoes e ouve seu corao?
	Mas  meu corao ou meu corpo que me impulsiona para voc?
Hugh suspirou.
	Voc est se deixando levar outra vez pela mente e isso no pode continuar.  Hugh a ergueu no colo como se fosse uma pluma e carregou-a para dentro da cabine.  Eu tenho de mudar isso.
Natasha no protestou. De vez em quando era preciso arriscar. O medo de perder podia impedir a vitria.
Devido  pouca largura das portas, Hugh precisou coloc-la no cho antes de chegarem ao dormitrio. Mas antes que ela pudesse pensar em recuar, Hugh a puxou e atraiu-a de encontro ao peito.
	Enfim ss de verdade, sra. Garratt  Hugh murmurou e segurou-lhe o rosto com ambas as mos.
Natasha mergulhou nos olhos cinzentos e sentiu como se estivesse caindo em um precipcio. Enlaou-o pelo pescoo para se firmar. E ao ser novamente beijada, resolveu surpreender Hugh, desabotoando sua camisa.
Ele ficou feliz como nunca o vira antes. Riu e se ps a ajud-la. Quando chegaram ao ltimo boto, ele se livrou da camisa com um movimento rpido. Natasha respirou fundo ao ver o peito inteiramente nu ao seu alcance. Depois fechou os olhos e comeou a provar o sabor daquela pele, centmetro por centmetro.
Proibiu-se de pensar. Algo to bom no podia ser ruim.
Incapaz de suportar a doce tortura, Hugh impediu-a de continuar e reclamou a posse de seus lbios. E enquanto se beijavam, Hugh soltou o fecho do suti e jogou-o longe.
A cabine estava parecendo o quarto do hotel depois que Hugh espalhou suas roupas ntimas. Apenas, dessa vez, era para valer.
Ele curvou o corpo de Natasha conforme a beijava de forma a senti-la por inteiro. E sem que Natasha antecipasse o que Hugh tinha em mente, ele a segurou pela cintura e a sentou na mesa.
bria de excitao, Natasha abraou-o com as pernas.
Hugh fitou-a como se tivesse febre.
	Voc  linda. Linda demais. E sensual.
Natasha dobrou o corpo para trs, oferecendo-se a seu marido. Ele se inclinou e beijou-a apaixonadamente para depois faz-la gemer outra vez conforme se apoderava dos seios e sugava-os como se fossem frutos maduros.
Natasha agarrou-se  nuca de Hugh e ouviu a voz dele ecoar em sua mente. No estava enganada? Ele realmente lhe falara de amor? Como podia ter certeza dos sentimentos de Hugh? No era apenas desejo? E se depois que consumassem o ato, no sobrasse nada?
Era preciso arriscar. Esse pensamento tornou a assalt-la. Amava-o e no podia recusar o que Hugh tinha para lhe dar. No podia se recusar a ele. Faria qualquer coisa que ele pedisse.
Sentiu que Hugh puxava o zper de sua cala. O corao comeou a bater to forte que o ar lhe faltou. Enlaou-o pelo pescoo e foi novamente erguida e colocada no cho.
A cala deslizou no mesmo instante por suas pernas. Movida pelo desejo, ela deu um passo e se livrou da roupa.
Agora s faltava Hugh tirar a ltima pea. Mas em vez de faz-lo, ele a fitou por um longo momento e a fez toc-lo.
	Tire meu cinto  ele pediu.
Natasha obedeceu com dedos trmulos. Mas Hugh no parou a. Ele quis que ela desabotoasse o jeans tambm.
Natasha tornou a obedecer. Sentia as faces queimarem, mas no podia parar. Engoliu em seco. Teve sucesso com os trs primeiros botes, mas quando tentou abrir o quarto e tocou no membro rgido, recuou sem poder evitar.
Hugh segurou sua mo e a levou de volta ao local. Mas ela tornou a afast-la com um gemido de pnico.
Ao v-la baixar os olhos, Hugh a segurou pelo queixo.
	O que foi? Nunca fez isso antes?
	Eu... eu sinto muito.
No mesmo instante, Hugh atraiu-a de encontro ao peito e afagou-lhe os cabelos.
	Por que no me disse antes? Eu no imaginava... No tenha medo. No farei nada que possa machuc-la. Eu te amo.
Natasha ergueu os olhos brilhantes de lgrimas.
	Voc me ama?
Ele fez que sim.
	Demais  Hugh repetiu, sorrindo.  Foi por isso que quis me casar com voc. O resto foi incidental.  por isso que quero tanto que confie em mim. Para depois me amar.
Natasha quase disse que j o amava, mas o medo foi maior. Hugh podia estar enganado. Talvez ele apenas pensasse que era amor, quando o que sentia era uma forte atrao.
Apesar de pequeno, o barco era luxuoso. Luzes indiretas tornavam o ambiente ntimo e aconchegante. A cama estava coberta com uma colcha vermelha.
Hugh a fez deitar e terminou de se despir. Quando se deitou ao lado dela, tornou a lhe acariciar os cabelos.
	Serei delicado. Prometo me controlar, embora saiba que isso no ser fcil.
Hugh beijou-a e a fez rolar de forma que ficasse por cima dele. Natasha gostou da posio. Dava-lhe uma sensao de poder. E quando tomou a iniciativa de beij-lo, deslizou a lngua pelos recessos daquela boca, da mesma forma que ele fazia com ela.
Foi excitante ouvi-lo gemer de prazer.
	Cuidado!  ele murmurou.  O que est fazendo comigo pode ser perigoso.
Natasha riu. Sabia que no estava correndo nenhum perigo. Provocou-o com seus cabelos. Fez com que eles cassem como uma cascata sobre o rosto e sobre os ombros dele. Seus corpos roavam um no outro. A imensa virilidade era uma prova de que mais cedo ou mais tarde, a promessa de Hugh teria de ser quebrada, e de que ele no poderia ser paciente por muito tempo.
Tentou relaxar quando sentiu as mos percorrerem suas coxas e tentarem toc-la sob a calcinha, mas os msculos se negavam a colaborar. Estava tensa, rgida e comeou a tremer conforme Hugh descia a ltima pea que lhe cobria o corpo.
Os olhos de Hugh foram os primeiros a possu-la, detendo-se lenta e demoradamente em cada curva.
	Eu a vi assim muitas vezes em sonho  Hugh murmurou.  Nua e linda. No sei como pude suportar essa espera. Houve momentos que pensei que iria enlouquecer de desejo.
	Eu tambm  Natasha confessou.  Eu tambm queria...
Ela no pde continuar. Os lbios de Hugh se apoderaram com volpia de sua boca e suas mos tornaram a deslizar por suas coxas, agora sem a proteo da renda. Apesar do amor e da paixo que invadiam seu peito, Natasha sentiu-se subitamente tmida.
	Est tudo bem  Hugh murmurou em seu ouvido.  Deixe acontecer.
Natasha tentou relaxar e tornou a gemer ao senti-lo acariciar o centro de sua feminilidade. No sabia que era possvel sentir tanto prazer. Suas costas arquearam como se tivessem vida prpria. Mas por pouco tempo. Com um gemido, Hugh a fez rolar novamente e se colocou por cima dela.
O mundo deixou de existir para eles. O universo poderia acabar e eles no perceberiam.
Quando Hugh finalmente a penetrou, ela no se importou com a dor. Aquilo era uma prova de que agora pertencia totalmente a ele. No apenas de corao e de alma, mas tambm de corpo.
	Voc est bem?  Hugh murmurou em seu ouvido.
Natasha fez que sim, sem poder falar.
Hugh foi gentil, mas firme. Sua penetrao foi completa. E quando comeou a se movimentar, ela pensou que nenhuma unio poderia ser to perfeita. Ondas de prazer a inundaram. Sentiu-se como se estivesse no olho de um furaco. Hugh avisou-a que no seria fcil manter o controle. Ele no conseguiu. Sua movimentao tornou-se rpida, cada vez mais rpida, at que os gemidos se misturaram e eles se abraaram, sem mais foras.
CAPITULO X

Natasha abriu os olhos e viu seu marido banhado por um facho de luz que se infiltrava pela janela, com uma bandeja nas mos.
Um sentimento to forte vibrou em seu peito que ela no pensou em nada a no ser em abra-lo.
Como se tivesse lido o pensamento de Natasha, Hugh deu um sorriso e depositou a bandeja no mesmo instante na mesa-de-cabeceira, puxou o lenol e acariciou possessivamente o corpo curvilneo. Eles haviam feito amor muitas vezes no decorrer da noite e apenas ao nascer do dia se entregaram ao cansao. Mas em vez de saciar o desejo que sentiam um pelo outro, a vontade de repetirem as experincias s fizera aumentar.
Algum tempo depois, quando finalmente resolveram saciar um outro tipo de apetite, Hugh brincou com ela.
	Mulher insacivel. Agora, ir dizer que meu caf da manh esfriou e perdeu o sabor.
Natasha deu um amplo sorriso e antes que pudesse responder, Hugh continuou.
	Tenho novidades.
	Conte logo que j estou curiosa.
	Acho que conseguimos descobrir ao menos dois elos da organizao a que Lester est ligado. Lembra-se daquele investigador de Miami de quem lhe falei? Ele me ligou faz uma hora e disse que descobriu fatos interessantes.
	No contou nada a respeito?
	No. Mas combinamos de nos encontrar hoje  tarde. 
	Hoje  tarde? Quer dizer que voc...
Hugh assentiu.

	J reservei um lugar no vo para Miami. Precisamos seguir esta pista antes que Lester tenha chance de apag-la. Farei o possvel para estar de volta esta noite. Mas se minha presena l for necessria, talvez me demore por um dia ou dois. At l, no saia daqui. Os rapazes a protegero.
	Sim,  claro  Natasha respondeu, decepcionada. Preferia que Hugh a tivesse convidado para ir junto, mas no se atrevia a fazer a sugesto.
Hugh sorriu e segurou-a pelo queixo.
	Mas ainda tenho cerca de trinta minutos antes de me preparar para o vo e d para fazer muito coisa nesse espao de tempo, no acha?
Sem Hugh, o dia pareceu longo e vazio. Natasha tomou sol no deque e tentou se consolar vrias vezes com o pensamento de que um dia ou dois passavam rpido. Era incrvel, mas a falta que seu marido lhe fazia chegava a doer. Nunca se sentira to s em sua vida. E to insegura.
A ansiedade a invadiu por mais que tentasse lutar contra ela. Casamento s pressas no lhe parecia uma base concreta para o futuro. E se a chama da paixo se extinguisse com a mesma rapidez com que fora acesa?
Parecia incrvel que Hugh e ela no se conhecessem at uma semana antes. Costumava ser uma pessoa tranquila e independente. Agora, sentia-se presa de um torvelinho de emoes.
Por sorte, os rapazes a distraram com suas histrias sobre situaes que viveram no mar e a fizeram rir com o modo como se tratavam, trocando provocaes o tempo inteiro.
Jurgens nomeou-se seu camareiro-mor, servindo-lhe bebidas geladas constantemente e preparando uma deliciosa lagosta para o jantar.
Mais tarde, mais por hbito do que por preocupao, ela pediu o celular emprestado a ele e ligou para o cassino para saber se estava tudo correndo bem em sua ausncia.
Enquanto aguardava o toque, porm, Natasha apertou o aparelho com fora, decidida a desligar se Lester atendesse. Mas, para sua surpresa, foi a voz de Debbie que soou do outro lado.
	Debbie? O que est fazendo a? Algum problema?
	Natasha? No. Est tudo bem. Vim buscar algumas coisas de Lester. Pensei que fosse ele ligando do hospital.  Os mdicos resolveram segur-lo mais um dia porque sua presso est alta.
	No  de admirar  Natasha respondeu.
	Ele continua com um terrvel mau humor  Debbie confidenciou.  Eu entendo. Afinal, Lester levou uma pancada e tanto na cabea. Inutilmente. A ironia do caso  que quem fez isso no lucrou nada. Lester usa aquele cofre para guardar documentos apenas. Dinheiro e papis mais importantes vo para outro lugar.
A informao deixou Natasha instantaneamente alerta.
	Que lugar?
	Lester mandou instalar um cofre no quarto dele. Pensei que voc soubesse.
Natasha tentou disfarar a excitao ao detectar o tom preocupado da outra mulher.
	No dir a ele que eu lhe contei, no ? Eu o surpreendi retirando uns papis do cofre um dia desses quando sa do banho, mas ele no me viu.
Natasha pensou rpido. Se houvesse alguma prova contra Lester, ela estava dentro daquele cofre. E aquele seria o melhor momento para uma investigao.
	Oua, Debbie. E muito importante saber o que h naquele cofre. Estou indo para a. No diga nada a Lester.
	Mas...
	Por favor. Espere por mim. Eu explicarei quando chegar.
	Est bem  Debbie concordou aps um longo momento.  Mas eu prometi que voltaria e que levaria um pijama limpo e alguns objetos dele de uso pessoal. Lester est farto de usar o camisolo do hospital.
	Estarei a em trinta minutos.
Natasha desligou e devolveu o celular com a testa franzida.
Jurgens, tenho de ir para o cassino com urgncia. Daria para voc conseguir um txi para mim?
O rapaz hesitou.
	No ser perigoso? O sr. Garratt no gostar de saber que saiu sozinha.
	Ok. Pode me acompanhar, se quiser  Natasha concordou. O que no podia era perder tempo.
Meia hora depois, os dois estavam percorrendo as estradas da ilha em uma moto antiga que Jurgens havia conseguido emprestada.
Entraram no cassino pelos fundos. O pessoal da cozinha estranhou sua presena, mas ela no se deteve para explicar. Subiu correndo para o apartamento ao mesmo tempo que cogitava o que dizer a Debbie.
	Sente-se  ela pediu ao ver a outra plida de tenso.  Sinto muito, Debbie. Gostaria de poup-la, mas acho que precisa saber a verdade.
Mais do que preocupada, Debbie ficou consternada.
	Oh, pobre garoto!  exclamou com os olhos marejados ao ouvir sobre o sobrinho de Hugh.  Eu sempre me senti pouco  vontade diante daquele Tony de Santo. No entendo como Lester pode estar lhe devendo, dinheiro.
	Eu tambm  Natasha confidenciou.  Aquele homem me provoca arrepios. Se Lester se envolveu com ele, est em maus lenis. No sei o que ser pior: cair nas mos do crpula ou da polcia.
	Voc acha que h algo no cofre que esclarea o caso?
	No sei, mas tenho um palpite que sim.
	No quero que Lester seja preso  Debbie murmurou, ainda mais plida aps ser inteirada dos fatos.
	Isso no ter de acontecer necessariamente  Natasha tentou tranquilizar a outra, embora no tivesse certeza do que estava dizendo.  Talvez a polcia lhe d imunidade em troca de evidncias contra o bando.

	Mas se depor contra Tony de Santo, Lester poder ser morto!  Debbie protestou.
	Lester se encontra em uma situao perigosa,  verdade  Natasha concordou.  As pessoas com quem se envolveu so temveis.
Debbie apertou os punhos.
	Como Lester pde ser to tolo?
Natasha olhou para a outra com firmeza.
	Coragem! Leve-me ao cofre, por favor.
Ela se levantou com relutncia, mas atendeu o pedido.
	Acho que ser melhor para ele. O cofre fica no fundo do guarda-roupa, atrs das gavetas. Mas no sei a combinao.
Natasha abriu a porta do armrio que cobria uma parede inteira do quarto e ajoelhou-se no cho antes de tirar as gavetas.
Jurgens examinou o armrio e, sob o olhar espantado das duas mulheres, tirou um canivete do bolso e retirou a chapa em poucos instantes.
O cofre era pequeno, mas suficiente para comportar papis importantes. Restava descobrir a combinao. Natasha franziu a testa e olhou ao redor como se algo no quarto pudesse lhe dar uma ideia.
Estranhou o telefone antigo ao lado da cama. Era do tipo com letras junto a cada algarismo do disco. Por que Lester teria um telefone daquele modelo no quarto? A menos que...
	Debbie, que nmero corresponde  letra L?
Debbie olhou para o aparelho.
	Quatro.
Natasha girou o boto para o quatro.
	E  letra E?
Aps tentar todos os nmeros correspondentes s letras que compunham o nome Lester, Natasha ouviu um clique e deu um sorriso de satisfao.
A porta do cofre abriu sem problemas. Ele era pequeno por fora mas grande por dentro devido a sua profundidade. Havia uma caixa metlica em seu interior. Natasha puxou-a para fora e abriu-a.
Encontrou pequenos estojos com diamantes, mas o que mais a interessou foi uma caderneta. Abriu-a, ansiosa, e soube que estava escrita em cdigo.
	Natasha?
Todos se viraram, em pnico, ao som da voz. Foi um alvio reconhecerem Hugh  porta.
	Sua tolinha!  ele censurou-a e tomou-a nos braos.
 O que est fazendo aqui? Por que no me obedeceu e ficou no barco?
Antes que Natasha pudesse responder, Hugh beijou-a com um mpeto que lhe tirou o flego. Ningum se comportava daquele jeito, a menos que realmente gostasse da pessoa...
	Eu no lhe pedi para cuidar dela?  Hugh censurou Jurgens em seguida.
	Ele no tem culpa  Natasha se apressou a defender o rapaz.  Eu o envolvi nesta histria. Ele veio comigo para me proteger. Se eu soubesse que voc voltaria esta noite, teria esperado para virmos juntos.
	No pude ficar longe de voc  Hugh confessou.  Afinal, o que houve de to urgente que no deu para .esperar at amanh?
	Encontramos o cofre secreto de Lester  Natasha informou-o.  Debbie me contou sobre sua existncia e eu decidi aproveitar que Lester ainda est no hospital para tentar examin-lo. E eu consegui abri-lo. Veja!
Hugh pegou a caderneta e folheou-a com cuidado.
	Voc consegue decifrar o que est escrito a?  Natasha perguntou, orgulhosa.
Hugh fez que sim.
	Tudo se encaixa. Isto e as informaes que obtive esta tarde so as provas de que precisvamos.
	Meus parabns  disse uma voz carregada de sarcasmo.
Todos se viraram ao mesmo tempo para a porta.
	Lester! Voc deveria estar hospitalizado!  Debbie exclamou, chocada.
	Eu resolvi me dar alta  ele respondeu.  Parece que adivinhei que no podia continuar l nem sequer por mais um minuto. Pensei que pudesse confiar em voc. Agora vejo que faz parte do compl contra mim.
	Oh, Lester, eu fiz isto para seu bem  Debbie protestou.  Voc est muito encrencado.
	Estou, no estou?  Lester olhou para Hugh como se quisesse fulmin-lo.  Graas a voc. Afinal, o que tem contra mim.
	Tenho Peter Seymour.
	Peter o qu?
	No se lembra mais dele, no ? Ele  meu sobrinho. Voc quase arruinou sua vida.
	No posso me lembrar de todas as pessoas que j conheci  Lester respondeu com um encolher de ombros.
 Mas de voc, jamais me esquecerei. Eu no estaria em dificuldades, se no fosse por sua causa.
	Voc est louco  disse Natasha.  Eu jamais entregaria Spaniard's Cove a Tony de Santo.
Lester deu uma risada sem humor.
	Oh, sim, voc assinaria o papel. Tony tem meios de conseguir tudo que deseja. Mas por causa de sua teimosia, agora serei eu a pagar o pato. Ou no. Acho que posso escapar dele eme livrar de vocs ao mesmo tempo.  Lester empunhou um revlver.  Vou matar voc, Garratt. Mas antes quero v-lo sofrer pelo inferno em que transformou minha vida desde que cruzou meu caminho. Portanto, vou matar primeiro a pessoa que lhe  mais cara.
Abruptamente, Lester apontou a arma para Natasha. 
Hugh atirou-se sobre Natasha em uma reao instintiva.
Natasha gritou, no devido  dor que sentiu ao cair, mas por Hugh estar na mira do revlver. Mas quem acabou sendo atingida foi Debbie ao tentar impedir Lester de cometer o desatino.
Sob o corpo de Hugh, Natasha viu uma mancha de sangue na blusa de Debbie  altura do ombro. Sob seu peso, Lester dizia horrveis palavres. Jurgens, plido como um lenol, agiu com presteza e desarmou o agressor.
Minutos depois, o quarto foi invadido por vrios funcionrios do cassino que haviam sido alertados sobre o acontecimento pelo estampido da arma.
Hugh foi o primeiro a se levantar e a trazer Natasha consigo.
Voc est bem?
Sim.  Natasha abraou-o, angustiada e aliviada ao
mesmo tempo.  Tive muito medo de que ele fosse mat-lo.
O abrao que Hugh lhe deu transmitiu o mesmo receio e o mesmo sentimento de amor e de preocupao.
Eu tambm tive muito medo de perd-la.
Natasha se ajoelhou ao lado de Debbie em seguida com imensa pena.
Por que fez isso?
	Eu no queria que Lester fosse para a priso  Debbie murmurou.  Se ele matasse um de vocs, no haveria perdo. Sei que ele cometeu muitos erros, mas eu ainda o amo.
Lester olhou para Debbie naquele instante. Estava to plido quanto a namorada. Segurou-lhe a mo e sua voz soou embargada quando lamentou o feito.
	Jurgens  disse Hugh , por favor chame a polcia e uma ambulncia. Depressa!
Passaram algumas horas at Natasha e Hugh poderem voltar para o barco.
Natasha olhou para a lua que comeava a diminuir de tamanho antes de entrar na cabine.
	Em que est pensando?  Hugh abraou-a por trs.
	Que a lua estava exatamente assim, mas ao contrrio, quando voc apareceu no cassino pela primeira vez. Uma semana atrs. Parece incrvel que tantas coisas tenham acontecido.
	Felizmente agora podemos respirar em paz.
	Sim  Natasha concordou e girou o corpo para tambm poder abra-lo.  Se aquela bala tivesse atingido voc, eu...
Hugh calou-a com um longo beijo.
	Est tudo bem. J acabou. Agora temos um ao outro pelo resto de nossas vidas.
Natasha ergueu os olhos brilhantes de lgrimas.
	Agora voc acredita em mim, no ?  Hugh quis saber.
Ela o beijou em resposta. Todas suas dvidas haviam desaparecido ao som do disparo. Hugh fora sincero. Seus beijos foram sinceros.
Uma hora ou pouco mais depois, a lua os viu caminhando de mos dadas pela praia, mais exatamente pela beirada do mar.
	Nunca acreditei que voc quisesse realmente casar comigo.
	De certa forma, no  de admirar que desconfie de todos os homens. Seu padrasto no foi um bom exemplo em sua vida.
Natasha concordou.
	Eu tinha medo de confiar nas pessoas. No acreditava que um relacionamento pudesse durar. Os homens que frequentam o cassino trocam de mulher como trocam de roupa. 
Hugh levou a mo de Natasha aos lbios e beijou-a.
	No final, acabou tudo bem. A no ser para a pobre Debbie.
	At mesmo para Debbie  Natasha retrucou.  Ela no se importou com o ferimento. Est nas nuvens agora que Hugh se arrependeu e a pediu em casamento.
	E daqui a poucos dias, voc ter o que tanto desejava seu cassino e a liberdade de fech-lo.
	Eu mudei de ideia  Natasha confessou.  Por causa de uma certa pessoa. Como essa pessoa tem residncia na Inglaterra, decidi vender Spaniard's Cove.
A surpresa de Natasha no poderia ser maior ao ver Hugh fazendo um movimento negativo com a cabea.
	Quem disse que estou pensando em voltar para a Inglaterra? Sei o quanto voc ama este lugar. Decidi que ficaremos aqui e que transformaremos o cassino em um resort, como voc sempre sonhou.
Natasha pensou que seu corao explodiria de felicidade.
	Voc est falando srio?
	Claro que estou. Por que voltar ao frio e  chuva da velha Inglaterra se podemos continuar no paraso?  Hugh abraou Natasha, ergueu-a e a fez girar em seu colo.  Um paraso com meu anjo particular?

FIM
